DALAI LAMA,SEM SORRISOS - MARK HAY



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DALAI LAMA,SEM SORRISOS
por Mark Hay

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Reencarnação Sangrenta.
Em meados do verão de 2013, Dolma Yangkey, uma mulher de 28 anos e mãe de dois filhos, subiu em sua moto no povoado de Shakchu, na Região Autônoma do Tibete (RAT), girou o acelerador o máximo que pôde e saiu em disparada, determinada a se matar em uma colisão brutal, aos olhos de todos. Logo após partir, caiu da moto e chocou-se contra o chão. Yangkey foi levada para o hospital com ferimentos graves, mas ninguém sabe dizer em que estado ela ficou. Moradores da região disseram a representantes do Centro Tibetano pelos Direitos Humanos e a Democracia (TCHRD, na sigla em inglês) que a polícia chinesa colocou guardas na porta do quarto do hospital onde Yangkey estava internada para impedir o acesso de qualquer visitante.
A China é um lugar estranho, com sua própria lógica interna, impenetrável. Mas não é todo dia que o país mobiliza destacamentos de segurança para proteger depressivos suicidas ou pessoas com problemas mentais. De acordo com o TCHRD, Yangkey foi trancafiada porque sua tentativa frustrada de suicídio era, na verdade, um protesto. O Centro diz que ela exigia: 1) que os chineses libertassem seu marido, Lobsang Tsering, e mais 49 homens presos com ele; e 2) que os chineses renunciassem à sua intenção de escolher e proclamar unilateralmente a nova encarnação do Rongpo Choeje Lama.
A história pode parecer esotérica em excesso para ouvidos estrangeiros, mas a decisão chinesa de indicar esse lama regional (“Lama” é um título usado para monges proeminentes dentro do Budismo Tibetano) é o cerne do desespero de Yangkey. Desde 1969, seu vilarejo — uma aglomeração de 170 famílias em meio às colinas de cor marrom acinzentada ao nordeste de Lhasa, a capital administrativa da RAT, e exatamente no centro da zona cultural tibetana — tem vivido de forma razoavelmente pacífica, apesar das duradouras restrições às liberdades pessoais e à expressão religiosa impostas pelo governo chinês.
Em 2010, os burocratas estatais inovaram: decidiram se intrometer também no processo de reencarnação, o que gerou uma série de protestos que se espalharam por várias partes da região (incluindo o ato que levou à prisão do marido de Yangkey). As manifestações levaram o grupo ativista Tibet Watch, sediado no Reino Unido, a declarar a região de Driru, vizinha ao local do incidente, como “O Novo Núcleo da Resistência Tibetana”, conforme relatório divulgado em abril de 2014.
A interferência dos chineses no renascimento de figuras espirituais não é exatamente uma novidade no Tibete. Desde 1792, a Dinastia Qing, o Partido Nacionalista Kuomintang e o Partido Comunista Chinês (PCC) tentaram, com êxito limitado, influenciar os monges na escolha de reencarnações de lamas importantes. Em 1995, o PCC demonstrou sua vontade de tornar-se um árbitro espiritual, rejeitando a escolha, pela elite religiosa, do 11º Panchen Lama, a segunda figura mais importante do mundo tibetano. Em vez disso, o proclamado foi o filho de um membro do Partido Comunista. Ainda assim, dezenas de reencarnações, tacitamente toleradas pelo PCC desde a década de 1980, ocorreram sem o envolvimento do governo.
A intervenção nesses assuntos deverá se tornar ainda mais comum, já que, em 2007, as autoridades chinesas aprovaram uma lei, a Ordem Número 5 da Administração Estadual de Assuntos Religiosos sobre “Medidas de Gestão para a Reencarnação de Tulkus no Budismo Tibetano” (os Tulkus são as reencarnações de lamas). Sim, agora o comunismo também controla o mundo espiritual. O decreto assegura o direito do PCC de supervisionar (usando, por exemplo, quatro níveis de burocracia estatal para verificar as inscrições dos candidatos) e, se necessário, direcionar a reencarnação de todos os lamas tibetanos, incluindo aqueles que vivem no exílio. A lei é uma tentativa ostensiva de controlar budistas corruptos que, segundo um relatório elaborado por Zhang Weiming, do Centro de Estudos Tibetanos da Universidade Sichuan, compram a ordenação como lamas por US$ 32.500 por cabeça e utilizam seus títulos falsos para extorquir seguidores.
Os tibetanos, contudo, têm suas dúvidas quanto à boa vontade do governo chinês. Eles acreditam que a reencarnação do Rongpo Choeje Lama apenas demonstra o nível de força que os chineses estão dispostos a exercer para impor as leis. E também sugere que o decreto esteja especialmente voltado para o controle da reencarnação de uma figura substancialmente mais importante e querida: o Dalai Lama, o líder espiritual e simbólico não apenas de um monastério ou seita, mas de quase todos os tibetanos ao redor do mundo — e que também tem sido, de forma intermitente, o inimigo público número um do Partido Comunista Chinês desde que fugiu para o exílio, em 1959. Em vez de negociar, o governo está agora determinado a esperar pela morte do Dalai Lama, rechaçar a legitimidade de seu sucessor e decretar o fim de seu problema tibetano. E a capacidade de proclamar seu próprio lama-chefe é uma arma nova e atraente em seu arsenal antiespiritual.
Os tibetanos baseiam sua concepção de morte e jornada de volta à vida nos textos do Livro Tibetano dos Mortos, escrito no século VIII e também nas discussões posteriores feitas sobre ele. Trata-se de um texto excepcionalmente esotérico e o purgatório aterrorizante que ele descreve é mais ou menos assim:
Após a morte, a consciência acorda no Bardo, um labirinto assustador de luzes cintilantes, realidades distorcidas e manifestações de nossos maiores temores e piores invejas. Lá, a consciência deve permanecer por, no mínimo, algumas semanas, mas pode ficar perdida por décadas. Imagine uma longa bad trip de ácido — a consciência da pessoa é atacada e torcida na confusa batalha deste outro mundo até tropeçar, acidentalmente, em um novo corpo. Contudo, seres iluminados — ou seja, os lamas superiores — são dotados de uma sabedoria especial e sabem como manipular o Bardo para seus próprios objetivos. Eles conseguem conservar suas personalidades, senso de individualidade e missão na Terra; e são capazes de orientar sua alma para surgir (após algum tempo) em um local que pode ser sugerido a seus discípulos antes ou após a morte.
No caso do Décimo Quarto (Atual) Dalai Lama, quando seu antecessor morreu, os lamas encarregados de procurar sua reencarnação comunicaram a ocorrência de uma série de eventos milagrosos. A cabeça embalsamada do Lama virou-se em direção a Takser, a cidade natal de sua reencarnação, e um fungo em forma de estrela cresceu em seu túmulo apontando para a mesma direção. Depois, um dos lamas superiores encarregados da busca teve uma visão em um sonho, mostrando um lago em Amdo, perto da casa da Décima Quarta encarnação, com três letras chinesas flutuando sobre ele no céu: Ah, Ka e Ma.


Caminho para Tsuglagkhang, residência oficial do Dalai Lama. Imagem: Zishaan Latif.

As letras orientaram os monges ao monastério Kumbum em Amdo, onde eles ficaram sabendo sobre um garoto especial, que morava bem perto dali e cujo pai havia sido curado de uma doença terrível quando ele nasceu. Disfarçados, os lamas foram visitar o garoto, que não apenas sabia que eles eram monges, como também de qual monastério eles vinham. O garoto falava sem parar sobre Lhasa e, quando lhe foi mostrada uma pilha de objetos, soube escolher exatamente aqueles que haviam pertencido ao 13º Dalai Lama, afirmando “isso é meu!” todas as vezes. Imediatamente, ele foi levado de sua família para que sua educação monástica fosse iniciada.
Após três anos de ebulição, a situação voltou a ficar explosiva na região quando o governo chinês declarou que, em vez de um candidato escolhido por monges e o uso de sinais enviados do além, ele próprio havia localizado um candidato adequado para ocupar o lugar do Rongpo Choeje. Muitas pessoas da área já estavam aborrecidas porque, no início da primavera, grandes grupos de operários da etnia Han tinham ido para regiões próximas para começar a trabalhar em represas, minas e estradas ambientalmente questionáveis, o que levou a uma onda de protestos. Essa segunda afronta à fé dos moradores gerou novos protestos em frente ao pequeno e acanhado monastério.
Os chineses, por sua vez, mobilizaram dois mil policiais armados para reprimir os manifestantes ecológicos e religiosos em toda a região de Driru. Foi uma reação exagerada, descrita em um poema chamado “Triste Canção de Driru”, escrito por Tobden, um poeta nômade da região que usa o pseudônimo de Gho Gangga. Pouco antes de ser preso, ele escreveu:
“Veículos blindados, amarelos e escuros, / desfilando em uma fila organizada, / apontaram os canos dos canhões/ para as massas indefesas. // Sob a bandeira vermelha ensanguentada, com um barulho de sirene ameaçador, / perseguiram as pessoas em todas as vilas/ e roubaram sua felicidade e sua paz”.
Esta foi a consequência de forçar que uma reencarnação específica fosse aceita por um povo já cercado: distúrbios ressurgentes em uma parte do Tibet equivalente a sete vezes a cidade de São Paulo. Quando chegar a hora da reencarnação do Dalai Lama, o caos será imensuravelmente pior. Apesar de o monge negar o fato (e já ter feito tudo possível para mudar isso), ele é a liga que mantém o povo tibetano unido. Todas as imagens que temos de um povo pacífico, espiritual e coeso é resultado de seus esforços incansáveis para superar uma história de divisão, guerras e fragilidade com o objetivo de resistir na luta pela autonomia e direitos do Tibete. Se os chineses — e outros grupos hostis — contestarem sua reencarnação, a confusão e o vácuo causados por sua morte criarão uma abertura para as que as rachaduras da sociedade tibetana sejam reabertas para a retomada da violência, iniciando uma nova era de incerteza e derramamento de sangue.

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Moedas De Troca.
Importantes tibetanos fizeram críticas severas à lei da reencarnação desde a sua criação. Em 2007, o principal negociador do Dalai Lama com o governo chinês, Lodi Gyaltsen Gyari, extrapolou sua habitual civilidade declarando que a lei era um “ataque ao cerne da identidade religiosa tibetana”. Ao mesmo tempo, a Administração Central Tibetana (ACT, antes conhecida como Governo no Exílio, quando era chefiada pelo Dalai Lama) aprovou uma resolução, pedindo a ajuda da comunidade internacional para anular a Ordem. Cinco anos depois, o Congresso da Juventude Tibetana, uma coalizão formada por 30 mil jovens ativistas em dez países, fundada por Gyari e seus amigos na década de 1960, publicou um livreto de 62 páginas em que detalhava e contestava a lei.
Mesmo assim, o Dalai Lama, um homem incansavelmente otimista e jovial, fazia piadas sobre o assunto, explicando desta forma sua reação aos formuladores de leis chinesas:
“Brincando, eu digo a eles: para estarem envolvidos na minha reencarnação, primeiro eles têm que aceitar o Budismo. Ou aceitar a religião, ou o Budismo. Depois, eles têm que reconhecer a reencarnação do presidente Mao Tsé-tung e de Deng Xiaoping. Então, eles terão motivos para demonstrar algum interesse na reencarnação do Dalai Lama. Caso contrário, é tudo bobagem!”
Apesar das pressões que a lei coloca sobre sua reencarnação, o Dalai Lama sempre evitou falar sobre como ele irá renascer no exílio e também sobre como seus seguidores devem reagir a um impostor indicado pelo governo chinês. Ele provoca os jornalistas que o pressionam com essa pergunta. Muitas vezes, com um sorriso de desdém e uma risada, divaga que talvez ele simplesmente não volte à Terra ou que talvez não seja eleito ou mesmo que ele voltará como uma mulher. Cada uma dessas gracinhas gera uma resposta irritada da China, que afirma que qualquer reencarnação ocorrida sem sua supervisão irá violar a lei.
única coisa definitiva que o Dalai Lama disse sobre sua reencarnação é que ele não dirá nada definitivo até 2025, quando completará 90 anos.


A imagem do Dalai Lama em um restaurante de Dharamsala, na Índia. Imagem: Zishaan Latif.
De acordo com Robert Barnett, Diretor do Programa de Estudos Tibetanos Modernos da Universidade de Columbia, essa pode ser uma maneira furtiva encontrada pelo Dalai Lama de dizer que está aberto a negociações com o governo chinês.
Barnett é um acadêmico típico, com cabelos grisalhos desgrenhados e pequenos óculos de lentes redondas na ponta do nariz. Seria fácil achar que o professor mora em uma torre de marfim, alheio à realidade, falando bobagens sobre um mundo abstrato a partir de seu pequeno escritório repleto de pilhas de jornais e revistas mofados, tibetanos e chineses. No entanto, Barnett é uma das poucas pessoas no mundo que conversa regularmente com tibetanos no exílio e no Tibete e também com acadêmicos e autoridades chinesas. Quando entrei em seu escritório, ele falava baixinho em um microfone, aparentemente verificando acusações de longa data de que a China estaria restringindo, de forma seletiva, as viagens domésticas de tibetanos que vivem na Região Autônoma do Tibete. As coisas que ele diz vêm de fontes bem informadas — significam alguma coisa. E, ainda mais importante, fazem sentido.
Se o Dalai Lama morrer, o governo declarar sua reencarnação e a coisa ficar feia, a China tem o poder de controlar o Tibete pela força. Mas é muito mais fácil controlar um Tibete tranquilo, em termos de custos práticos, humanos e de relações públicas.
Paradoxalmente para os chineses, que aparentam estar determinados em indicar seu próprio Dalai Lama, o escritor Tsering Shakya diz que “o governo chinês deveria estar consciente de quanto o Dalai Lama está envolvido no propósito de deter a violência”. Shakya é um refugiado tibetano que nasceu em Lhasa e é o autor de Dragon In The Land Of Snows, livro considerado a história definitiva do Tibete moderno.
Em entrevistas, o Dalai Lama pode dar a impressão de ser um vovô velho e enfraquecido. A maneira como ele sorri e inclina a cabeça faz você achar que, a qualquer momento, ele irá colocar um doce na boca de um líder mundial desavisado. Seu jeito de falar, com uma cadência lenta e deliberada, pontuada por risadinhas, faz parecer com que ele esteja ficando senil. Mas sua mente é extremamente afiada.
Ele sabe que sua reencarnação poderá gerar reações explosivas, e os chineses também sabem disso. Os dois lados estão buscando uma forma de dispersar essa força. Enquanto isso, o Dalai Lama pode usar sua potencial colaboração com o governo chinês como uma moeda de troca, ganhando concessões e liberdades para seu povo, em troca de uma transição suave e inconteste. Mas o espectro da violência no Tibete pós-Dalai Lama paira dos dois lados e ele pode sentir a necessidade de fazer mais concessões do que inicialmente gostaria. Isso porque, se ele morrer sem resolver essa questão, arrisca o fechamento total de uma pequena janela de paz e unidade aberta por ele próprio para o Tibete, o que levaria à volta da divisão e da violência, exatamente como no passado.

Filhotes De Foca.
Incontáveis turistas com dreadlocks nos cabelos, piercings e vestindo sarongues passeiam pelas ruas de Dharamsala, na Índia, um subúrbio de McLeod Ganj. Para essas pessoas, a ideia de sangrentas revoltas tibetanas provavelmente parece absurda. Quase dez mil refugiados tibetanos vivem nesta Pequena Lhasa, nas encostas de uma montanha, quase 1.500 metros acima do nível do mar e a 8 quilômetros de distância de Dharamsala propriamente dita, suja e movimentada, de cultura indiana e secular. Para os milhares de turistas que visitam a região anualmente, é uma oportunidade única de vivenciar a cultura tibetana. O lugar exala uma sensibilidade sobrenatural, com toques de New Age. Aqui fica a residência do Dalai Lama no exílio.
As cafeterias estão cheias de jovens tibetanos, de cabelos longos e barbichas, que cantam versões acústicas de Drops of Jupiter, do grupo Train, para plateias formadas por tibetanos, indianos e ocidentais. As ruas estão tomadas por barracas vendendo colares de turquesa e coral falsificados, rosários para preces e pinturas típicas Thangka representando Budas enfeitados e felizes. Em meio às lojas, placas e cartazes feitos com stencil oferecem cura pelo método Reiki, meditação terapêutica e massagens tibetanas Men-Tsee-Khang. A economia da cidade depende quase totalmente dos peregrinos e turistas. Muitas dessas pessoas vêm para participar de um workshop sobre protestos pacíficos, ouvir o Dalai Lama discorrer sobre paz, amor e compreensão em seu Monastério Tsuglugkhang, ou andar em volta de rodas de oração feitas de ouro com personagens tibetanos etéreos, sugestivos e misteriosos que contemplam o fim das preocupações e sofrimentos mundanos. Dharamsala é a imagem mais típica e representativa do Tibete, embalada e distribuída para o mundo.
Mantendo essa imagem, a infraestrutura para turistas e peregrinos de Dharamsala aproveita-se de uma alegoria antiga sobre o Oriente: a imagem do Tibete como a cidade de Shangri-lá, um reino isolado e utópico, de paz e espiritualidade, popularizado pelo livro Horizonte Perdido, de James Hilton, publicado em 1933, e também pelo filme de mesmo nome lançado em 1937, dirigido por Frank Capra. De forma menos condescendente, a mesma imagem do Tibete antes de 1950, como um paraíso governado por um Dalai Lama jovem, visionário e sereno, reapareceu em 1997 em dois filmes: Kundun, de grande beleza sensorial, dirigido por Martin Scorsese, e Sete Anos no Tibete, de Jean-Jacques Annaud, considerado um pesadelo auditivo.
A imagem de serenidade é tão essencial que, em seu livro, Why the Dalai Lama Matters, o professor da Universidade Columbia e ex-monge budista tibetano Robert Thurman (ele renunciou aos votos em 1967 e, no mesmo ano, casou-se com uma modelo e trouxe ao mundo a atriz Uma Thurman) afirma que o líder espiritual — e manifestação do bodhisattva (ser iluminado) da compaixão, Avalokiteshvara — é importante, parcialmente, porque ele traz positividade e esperança para um mundo carente de tais sentimentos.
“Como Bob Thurman disse uma vez”, explica Barnett, “os tibetanos são os filhotes de foca da política internacional”.


Um jovem refugiado tibetano nas ruas de Dharamsala. Imagem: Zishaan Latif.
No entanto, só temos aqueles filmes antigos devido ao trabalho incansável do Dalai Lama para exportar uma imagem palatável do Tibete. Na década de 1960, a memória dos filmes e dos livros de 30 anos antes já estava apagada. Apenas cerca de uma dúzia de acadêmicos estudavam o Tibete na Europa e na América do Norte, sendo que os dois primeiros tiveram que escrever seus próprios livros didáticos sobre o idioma tibetano e quase ninguém prestou atenção. Na primeira vez que o Dalai Lama viajou aos Estados Unidos, em 1979, poucas pessoas foram às suas palestras e acabaram saindo frustradas com seu discurso religioso esotérico, impenetrável e pouco habilidoso.
A experiência lhe serviu de lição. Retornou em meados da década de 1980, com uma sofisticada estratégia de mídia que lhe rendeu o apoio de celebridades como o galã Richard Gere. Em 1989, Dalai Lama recebeu o Prêmio Nobel da Paz, levando sua fama às alturas e permitindo que ele fizesse de tudo, desde ser editor-convidado da edição francesa da revista de moda Vogue, estrelar um comercial da Apple e até fazer uma palestra na Sociedade de Neurociência, como contado pelo ensaísta indiano Pankaj Mishra, no perfil que escreveu sobre o líder espiritual, em 2008, para a revista The New Yorker.
“Para alguém que afirma ser ‘um simples monge budista’”, escreveu Mishra, “ele tem uma grande pegada de carbono e às vezes parece ser tão onipresente quanto Britney Spears”.
Graças à sua onipresença, ele conseguiu personificar e difundir a imagem de um movimento pacífico e idôneo.
“As pessoas não sabem muito” sobre o Tibete, explica A. Tom Grunfeld, tibetólogo e professor do Empire State College. “Existe muito mais sentimento do que conhecimento real”.
E o que as pessoas sentem é uma grande afinidade e sentimento de proteção em relação à causa tibetana graças a essa imagem.
“Os tibetanos sempre irão se beneficiar de, pelo menos, uma noção residual de que o Tibete é um tipo de paraíso”, acrescenta Barnett. “Como uma cultura pacífica mística, até mesmo imaginária”.
Essa aura faz com que uma ideia comum e apócrifa circule pela internet, dizendo que criticar o Tibete é a mesma coisa que dar um tiro no Bambi, o veado simpático das histórias infantis.
Além desta narrativa espiritual digerível, existe também uma história de conquista e destruição, contada em fotos granuladas em preto e branco e pequenos textos pregados em painéis no Museu do Tibete, um prédio de dois andares perto do complexo Tsuglugkhang. É uma exposição histórica simples, reforçada por testemunhos sobre torturas, suicídios e dor exibidos em telas de TV, de forma ininterrupta e repetida. Com esses elementos, os curadores contam a história de como, em 1950, a China invadiu o Tibete, até então considerado um país independente, pacífico, porém negligenciado. Com a ocupação, vieram 30 anos de violência e destruição cultural, dizimando (eles afirmam) um milhão de tibetanos e saqueando quase todos os 6.200 monastérios, conventos e templos da região.

Bravos E Frustrados.
Lendo com atenção os textos dos painéis do Museu do Tibete, algumas palavras se destacam em meio à quietude e ao sofrimento. Termos como “imperador tibetano”, “exército nacional” e “combatente da resistência” aparecem em várias partes. Lendo esses trechos, você entende a narrativa mais humanamente completa e complexa sobre o Tibete, que vai bem além da versão do filme feito para a TV. Não é a história de monges etéreos, que vivem em outra dimensão, em um plano de existência paralelo ao mundo no qual vivemos, mas sim a história de seres muito humanos e falíveis que lidam com a ganância, intrigas e, especialmente durante a ocupação inicial chinesa, raiva, desânimo e desespero. E essa é uma imagem muito mais crua dos budistas tibetanos do que as palestras do Dalai Lama jamais sugeriram.
O próprio irmão do Dalai Lama — o ex-Ngari Rinpoche Lama, que renunciou ao título monástico para usar seu próprio nome, Tenzin Choegyal, e alistar-se ao Exército indiano para lutar contra os chineses — resumiu esse sentimento tibetano em uma conversa com o jornalista Tim McGirk: “Meu sonho era saltar de paraquedas no meu vale favorito no Tibete, urinando sobre os soldados chineses enquanto descia. Eles fizeram coisas terríveis ao meu povo e eu estava com muita raiva”.
Ter conhecimento do histórico de violência tibetano é importante não para irritar os lamas idealistas, mas para que possamos apreciar este período único de não violência no qual vivemos, assim como o nível de desunião e conflito ao qual o Tibete poderá voltar algum dia. Também é importante como uma validação das emoções e impulsos de muitos tibetanos que se sentem restringidos pelo estereótipo de doçura de sua cultura.
“Não queremos que nos digam para agir de maneira tímida ou submissa simplesmente porque somos ‘refugiados’, ou budistas, ou tibetanos”, escreve Mila em um blog pró-independência. Ela é uma jovem ativista e instigadora, determinada a criar um novo Estado livre tibetano em uma parte da região de Kangpo, no sul. “Antes de tudo, somos seres humanos!”, diz ela, no blog.
Existe uma lógica tanto na fúria quanto na serenidade tibetana. Mesmo antes de o budismo chegar ao Tibete, os tibetanos já faziam parte da história como um império expansionista na região centroasiática. Eles passaram o início do século VII fazendo saques por toda a China até o leste, nas terras turcas até o norte e oeste e no Nepal até o sul. Depois, do século IX ao século XIII, foram passados em uma orgia de sangue e de guerras destruidoras.
Esse modo de vida imperial invadiu o Budismo quando foi introduzido no século VII. Segundo um argumento esotérico, todo o sistema de reencarnação do budismo tibetano, desenvolvido no século XIII, é a reificação do antigo conceito imperial pré-budista, que afirmava que líderes militares se manifestavam como espíritos reencarnados de ancestrais belicistas, guiando as novas gerações. E, naquele tempo, os lamas não brigavam entre eles nem por causa de títulos de lama, nem pela riqueza que vem implicitamente com tais títulos.


Um pastor nômade vigia iaques em Lhagang, a 5.800 metros acima do nível do mar. Imagem: Mark Hay.
Ainda é possível ter uma noção desse mundo em uma cidade como Lhagang. Na fronteira leste da zona cultural tibetana, a vila fica 5.800 metros acima do nível do mar em uma área coberta de grama entre as montanhas, equivalente a quatro vezes a cidade de Campos do Jordão. Não é possível criar muita coisa nestes campos sem viço, mas lá estão os pastores de iaques, da etnia tibetana Khampa. Eles percorrem os vales em pôneis parrudos, vestidos com lã de iaque, comendo queijo de iaque e queimando as fezes dos iaques para garantir calor. As casas dos nômades são frágeis, construídas de madeira e barro e com remendos feitos com ainda mais dejetos de iaque. Elas têm uma aparência totalmente medieval, a não ser pelos cabos elétricos que saem delas. E não é muito melhor o estado dos comerciantes e artesãos na cidade, que fica no centro dos campos: parece uma cidade fantasma do Velho Oeste, com homens empoeirados e desgastados pelo tempo usando túnicas compridas e escuras e chapéus de abas largas, vagando pelas ruas. Não é um cenário de riqueza — nem o tipo de desenvolvimento que os chineses prometeram quando invadiram o Tibete.
Na margem norte de Lhagang está o Monastério Lhagang, um complexo que ocupa um terço do território do município. Limpo, arrumado e movimentado, suas cores vivas e ornamentos dourados contrastam intensamente com o restante da cidade. No meio do mês, um dia considerado sagrado, pelo menos cem monges em vestes imaculadas de cor castanho-avermelhada, tocando trompas de som agudo e estrondoso, percorrem o circuito em volta do complexo, marcado por rodas de oração ricamente decoradas. Eles recebem o apoio de parcas doações coletivas dos moradores da cidade — e eles não estão sozinhos. Três quilômetros ao sudoeste da cidade está um templo completamente novo, com a aparência de uma carcaça de concreto inacabada, com estátuas monumentais e símbolos dourados nas colinas à sua volta, acima de um outro monastério e de um shreda — uma escola budista onde mais cem jovens monges sentam-se em grupos organizados, estapeiam-se e gritam à vontade em debates dialéticos. Ao sul, as colinas estão enfeitadas por suntuosas e gigantescas pinturas nas pedras, representando entidades protetoras e seres iluminados. Do lado contrário, ao norte da cidade, escalando as colinas marcadas por bandeiras de orações budistas, é possível ver um monastério dourado e, oito quilômetros depois, outro monastério; e depois dele, um convento quase do mesmo tamanho.
Mesmo agora, sob essa pálida sombra da grandiosidade do passado, os monges de Lhagong demonstram a riqueza que pode ser retirada mesmo da terra mais árida. Eles não são nem um pouco avarentos. Muito pelo contrário, os monges modernos canalizam sua riqueza para a caridade: em dias sagrados, eles entregam doces às pessoas em quantidades tão grandes que fariam crianças alucinarem em dia de Cosme e Damião. Esses doces são abençoados e supostamente saudáveis. Também são entregues grandes tigelas de arroz e vegetais em conserva. Eles guiam, inspiram e consolam. Os monges modernos são bondosos, mas mesmo assim comprovam que tanto uma civilização quanto um império podem ser, de alguma forma, extraídos de qualquer coisa que venha de um iaque. E, apesar de viverem em um reino espiritual, circulam rumores sobre alguns monges mais ambiciosos em outra parte do planalto — homens que deixam os monastérios para ficarem à toa e trocam seus donativos por um iPhone 6 ou um carro Lexus. Também há boatos sobre monges que, de olho nas fazendas produtivas de seus vizinhos, convencem seus devotos — que desde crianças frequentaram as escolas beneficentes administradas pelos religiosos — a se armarem e usarem a força para ganhar controle sobre elas em benefício dos monges. Poucos desses conflitos avançam muito hoje em dia, mas é fácil perceber como, no passado, longe do olhar do governo e imbuídos de grande carisma e poder, homens se envolviam em conspirações, assassinatos e estratagemas dignos de George R. R. Martin, autor da saga “Game of Thrones”.
Os Dalai Lamas estavam especialmente atolados nesses jogos de interesses. O cargo nasceu quando o Terceiro Dalai Lama — que concedeu os títulos de primeiro e segundo Dalai Lamas retrospectivamente a dois homens mortos — reivindicou seu direito ao poder em um violento levante, invadindo monastérios e destruindo materiais que contestassem sua supremacia. O Quinto Dalai Lama recrutou exércitos inteiros para lutar contra os príncipes seculares Ü-Tsang e estabelecendo o raio de influência e de governo dos Dalai Lamas seguintes pelo uso da força da espada, e não do espírito. O Quinto Dalai Lama também ajudou o imperador chinês a reprimir revoltas na província de Yunnan. Em 1661, os primeiros dois padres jesuítas a visitar a região, no caminho de Pequim para Goa, se referiram ao Dalai Lama como um “rei divino e demoníaco, que condena à morte aqueles que se recusam a adorá-lo”. Anos mais tarde, em 1745, um outro Dalai Lama ordenou a expulsão da crescente ordem jesuíta no Tibete em nome da integridade religiosa.

Moldando O Tibete.
Após dois séculos de Dalai Lamas fracos, dissimulados e até mesmo um alcoólatra e mulherengo, o homem reconhecido como a décima terceira encarnação, Thubten Gyatso, continuou o legado sangrento de seus antecessores e apoiou a remoção de cristãos da região de Kham, no leste do Tibete, por volta de 1904. Calvo, de traços acentuados, com sobrancelhas arqueadas e um bigode pontiagudo cuidadosamente modelado, ele até mesmo parecia um vilão megalomaníaco — quase como uma mistura do Mandarim, inimigo do Homem de Ferro, com Lex Luthor, rival do Super Homem. Era interessante para os chineses tê-lo como vilão, mas, ao menos, seus conflitos eram de natureza altruísta.


O 13º Dalai Lama, Thubten Gyatso, com cara de poucos amigos. Imagem: Reprodução.

Após ter fugido das invasões britânica e da dinastia Qing em 1904 e 1909, Gyatso voltou ao Tibete em 1913 determinado a declarar a independência e usar a força para unir o Tibete e fazer dele um Estado moderno. Mas, ao tentar cobrar impostos das instituições religiosas para financiar uma força policial e militar violenta, acabou gerando desentendimentos com o Panchen Lama, o segundo mais importante na hierarquia tibetana, que acabou fugindo do Tibete, se uniu ao Partido Comunista e passou a incentivar invasões à região. Foi uma luta crescente até a morte de Gyatso, o 13º Dalai Lama, em 1933. Conservadores aproveitaram o vácuo do poder no budismo tibetano para castigar seu aliado reformista, Lungshar, que foi torturado com ossos extraídos das patas de iaques, apertados contra suas têmporas até que seus olhos saltassem das órbitas, deixando-o cego.
A violência entre monges rivais, reformistas e conservadores, forças expansionistas e o exército inexperiente do Tibete continuou até a época do 14º Dalai Lama, nascido em 1935, identificado e colocado em educação monástica em 1937. O exército tibetano — na realidade, um grupo de homens da etnia Khampa, armados e mal treinados — entrou em choque com o partido Kuomintang no início da década de 40 e depois reuniu 5 mil homens em um confronto contra o exército de Mao Tsé-tung. Os chineses aniquilaram os tibetanos sem piedade e marcharam sobre os poucos guardas ao redor de Lhasa, sem encontrar resistência. Mas mesmo décadas após essa chacina, o povo do campo — tanto monges quanto laicos — continuou a tirar sangue de seus invasores.
Então a violência cessou, súbita e quase completamente, com uma declaração do 14º Dalai Lama em 1974. As raízes dessa mudança inesperada estavam na transformação do Dalai Lama, que não era mais o jovem líder vindo de um pequeno vilarejo de uma terra dividida, e sim a estrela guia de uma comunidade unificada.
Quando o 14º Dalai Lama foi entronizado em 1950, nada que se falasse sobre o Tibete poderia indicar que aquele Dalai Lama teria tanta autoridade e popularidade universal, e que apenas uma palavra dele poderia encerrar uma era de violência e iniciar uma época de paz. Naquele tempo, o domínio do Dalai se estendia até as terras centrais de Ü-Tsang (a moderna Região Autônoma do Tibete), mas enfraquecia perto de terras dos povos linguística e culturalmente distintos das etnias Amdo e Kham, no leste. E também é preciso levar em conta o fato de que esses tibetanos não eram homogeneamente budistas — até um décimo das pessoas eram praticantes da religião pré-budista e espiritualista Bön; já no campo, havia várias comunidades de católicos e muçulmanos.
Mas em 1959 todos esses povos diversos acabaram juntos no exílio. Naquele ano, revoltas que haviam se originado em Kham desde 1950 finalmente chegaram a Lhasa, o coração da província de Ü-Tsang, onde rapidamente se espalharam boatos sobre a existência de planos para assassinar o Dalai Lama. Antes um aliado do Partido Comunista Chinês, ele havia se distanciado da política. Então, por um motivo qualquer, as forças chinesas que lidavam com os manifestantes em Lhasa lançaram duas bombas de artilharia contra o palácio do Dalai Lama. Imediatamente, fugiu para a Índia. Foi a desculpa necessária para acender o barril de pólvora dos violentos levantes que acabaram por ultrapassar as fronteiras do Tibete. Os seis anos seguintes prepararam o caminho para o estabelecimento da região autônoma em 1965. Mas a repressão fez com que, somente em 1959, 80 mil tibetanos se refugiassem em outros países. Hoje, o número de exilados chega a 150 mil, sendo que 100 mil estão em 43 assentamentos na Índia e no Nepal, enquanto os outros 50 mil estão espalhados por outras 42 nações.
Em 1960, o Dalai Lama convocou todos esses refugiados em Bodh Gaya, um refúgio rural no estado indiano de Bihar, onde, segundo diz a lenda, o Buda Siddhartha Gautama sentou-se à sombra de uma figueira, fatigado pelo sofrimento e pela busca espiritual, tão magro que seus ossos podiam ser vistos sob a pele. Após um período de contemplação, Siddhartha atingiu a iluminação. Foi neste lugar que o Dalai Lama anunciou o Juramento de Lealdade, pelo qual todos ali reunidos reconheceriam que os conflitos internos os tornaram fracos no passado, e que no futuro iriam rechaçar o regionalismo, o sectarismo e outros preconceitos, de forma a ficarem unidos sob sua liderança modernizadora.
Não é imediatamente claro por que alguém acreditaria em tal plano. O homem que fazia o juramento havia nascido como Lhamo Dondrub, mas seu nome mudou para Jetsun Jamphel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso (normalmente encurtado para Tenzin Gyatso) quando foi escolhido para ser o Dalai Lama. Ele é filho de um agricultor e negociador de cavalos, do vilarejo de Takser — tão pequeno que tinha apenas 17 casas — na região Amdo, no Tibete. Naquele tempo, Amdo estava tão assimilada à China que o Dalai Lama cresceu falando o dialeto Xining do mandarim, e não o tibetano. E sua ascensão ao trono do Dalai Lama, pouco antes da invasão chinesa de 1950, conferiu a ele não mais do que a liderança da escola Gelug (uma de quatro escolas) do budismo tibetano e o governo da província de Ü-Tsang. Ele não era nem mesmo considerado um lama superior até 1959, pouco antes de ir para o exílio, quando finalmente obteve seu Geshe, o equivalente tibetano a um doutorado em Teologia. Levando em consideração que apenas dois Dalai Lamas — o quinto e o décimo terceiro — tinham conseguido aproveitar e unificar tal poder, havia uma grande possibilidade de que esse jovem também seria um fracasso, como onze de seus antecessores.
Mesmo assim, como explica Geshe Lhakdor, que foi tradutor oficial do Dalai Lama e há doze anos é Diretor da Biblioteca de Arquivos e Trabalhos Tibetanos em Dharamsala, o repúdio dos comunistas ao Dalai Lama fez com que o líder religioso se tornasse uma espécie de mártir vivo, em quem os exilados confiavam e que os tibetanos desejavam. “Mesmo as pessoas adultas ou mais velhas são como crianças pequenas”, diz Lhakdor, um monge com vestes tradicionais e cabeça raspada. Ele se inclina na cadeira de couro de seu escritório com o olhar pretensioso de alguém que acha que inventou uma metáfora inspirada.
Reconhecendo as dificuldades de seu povo na adaptação ao clima e doenças típicas da Índia, além de terem de criar novas formas de sustento em um novo país, o Dalai Lama se esforçou para construir uma rede de segurança e uma sociedade coesa.
“Em qualquer lugar que tenhamos assentamentos, independentemente do tamanho, dispomos de instituições monásticas, além de escolas e hospitais. Tudo graças à iniciativa do Dalai Lama”, diz Pema Chhinjor, que é Kalon (posto equivalente ao de Ministro) do Departamento de Assuntos Religiosos e Culturais da Administração Central Tibetana. Agora um homem roliço e de aparência confortável, sempre com migalhas de comida sobre sua barriga, Chhinjor é uma das poucas autoridades com idade suficiente para se lembrar das épocas de privação. E é respeitado por isso. Muitas vezes visto como o número dois na hierarquia da administração tibetana, ele é incrivelmente franco para alguém com sua importância e posição.
Além de respaldar os tibetanos no exílio durante uma difícil transição, essas instituições criaram uma cultura unificadora. Na Escola Yongling, nas encostas ao sul de Dharamsala, isso pode ser percebido claramente. Crianças de diferentes origens, que apenas sessenta anos atrás mal estariam conversando em dialetos quase mutuamente ininteligíveis, agora correm por todas as partes vestindo uniformes iguais, depois se reúnem no playground para cantar músicas sobre fábulas padronizadas em uma língua padronizada. Eles também dançam de forma padronizada e estudam um currículo padronizado de história e cultura. Tudo é feito para construir uma identidade coletiva, que é forçada na mente das crianças antes mesmo que elas tenham idade suficiente para se prenderem a um mundo mental separado e isolado.
Até mesmo o cargo de Chhinjor, que supervisiona 265 monastérios no sul da Ásia, diz respeito a colocar pessoas com interesses diversos na mesma sala e fazer com que elas concordem com algum tipo de identidade ou unidade essenciais. A cada dois anos, o ministro reúne representantes das atuais cinco escolas do budismo tibetano e da religião Bön para estabelecer metas e agendas comuns.
Quinze anos depois de ter partido para o exílio, o Dalai Lama pode, compreensivelmente, ter achado que havia criado unidade e boa vontade suficientes para seu povo e para seu cargo, e que poderia cuidar da violência endêmica no Tibete.
Em 1956, participantes de revoltas fragmentadas no planalto leste, famoso pelo histórico de guerras, uniram-se no Chushi Gangdruk, um movimento guerrilheiro nas regiões de Kham e Amdo, aterrorizando os chineses.
Pouco antes da fuga do Dalai Lama, esses guerreiros das montanhas haviam assegurado o apoio da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA. Eles eram extremamente sanguinários e o último comandante do grupo, Gyato Wangdo, recebeu treinamento direto dos agentes americanos. Há relatos de que Wangdo teria perguntado seriamente a um de seus contatos americanos se eles poderiam dar ao Chushi Gangdruk uma daquelas espetaculares bombas nucleares sobre as quais ele tanto tinha ouvido falar, porque ele queria causar alguns estragos mais sérios.
Mesmo após o dinheiro da CIA ter secado em 1965 e os acampamentos na China terem sido identificados e dizimados, a insurgência continuou a partir da região de Mustang, no Nepal, até 1974. Naquele ano, uma mensagem gravada do Dalai Lama foi enviada, pedindo a eles que baixassem as armas.
Um combatente de Mustang chamado Ugyen Tashi jura que, quando ouviram a mensagem, “alguns homens até mesmo choraram”. “Todos ouviram com seus próprios ouvidos, por isso não havia outra escolha a não ser desistir. Então, entregamos nossas armas”.
Algumas bombas ainda explodiram do lado de fora dos escritórios do governo em Lhasa durante a década de 1980, mas ninguém se feriu. E os últimos lampejos de violência se dissiparam.


Um refugiado tibetano apresenta uma performance em Dharamsala. Imagem: Zishaan Latif.

Naquele ano, o Dalai Lama iniciou discussões internas sobre táticas para substituir revoltas violentas, mas o mundo só tomou conhecimento disso em 1987, quando ele falou sobre sua nova estratégia em um discurso no Congresso americano em sua primeira grande viagem para angariar apoio internacional. Naquele momento, o plano foi chamado de Proposta de Estrasburgo e, mais tarde, foi rebatizado de “Caminho do Meio” (Umay Lam em tibetano). Ele propunha o fim da luta violenta pela independência a qualquer custo e, em vez disso, protestos não violentos, incentivando uma autonomia negociada e real sob o governo chinês, além do respeito à cultura e religião tibetanas, a criação de uma zona de paz no Planalto, sem mísseis nucleares e forças militares que os chineses haviam posicionado ali no passado, e a negociação de todo o desenvolvimento na região com as autoridades tibetanas locais, de forma a assegurar que o crescimento iria beneficiar as pessoas, sem prejudicar o frágil ecossistema das estepes.
Esses esforços de paz chegaram ao seu ápice ao mesmo tempo em que o Dalai Lama era alçado à fama internacional no final da década de 1980. Para grande parte do mundo, portanto, as revoltas nunca aconteceram, apesar da existência de comunidades de apoio, em Nova York, para ex-grupos guerrilheiros como o Dokham Chushi Gangdruk. Até mesmo Lobsang Tseten, Coordenador Regional da Ásia da Rede Tibetana Internacional, admite que não conhecia aquela parte da história de seu povo até ter se deparado com o assunto recentemente em um livro. Nascido no Nepal, na condição de refugiado, e apresentado ao movimento pela libertação do Tibete em manifestações organizadas por estudantes enquanto estava na faculdade em Bangalore, na Índia, Tseten cresceu habituado com a filosofia da não violência e do Umay Lam.
A construção desses valores éticos e da unidade nacional criou o que é chamado por Matteo Mecacci, presidente da Campanha Internacional pelo Tibete, de “uma das populações de refugiados mais unidas que já vi”. Foi aberta uma janela de paz e unidade que permite que a população, apesar da dispersão e de gerações de deslocamentos constantes, atue em uníssono, mobilizando um apoio ilimitado. E retirou o quanto possível a tensão das potenciais negociações com a China. Do sectarismo dos anos 1930, passando pela violência da década de 1960 até agora, essa é uma das mais rápidas e completas mudanças de paradigma do mundo. Mas isso não pode ser dado eternamente como certo e, enquanto a China continuar a atacar os Dalai Lamas, tanto o atual quanto os futuros, a situação pode retroceder para as forças imutáveis do passado.

Parceiros Dispostos.
Não é porque supostamente achava que seria uma coisa cool e totalmente budista que Dalai Lama encerrou a era do Chushi Gangdruk e introduziu o período do Umay Lam, pregando a não violência. Isso foi feito porque ele acreditava (e possivelmente ainda acredita) que algumas pessoas em Pequim, com poder real nas mãos, estão dispostas a realizar negociações honestas. Afinal de contas, até hoje o Dalai Lama se considera muito mais marxista do que qualquer atual liderança chinesa. Mesmo durante o ápice da violência na década de 1960, o governo chinês oficialmente reservava um assento para ele no Comitê Permanente do Congresso Nacional do Povo.
Nos anos 1950, ele e Mao acreditavam que poderiam trabalhar juntos — independentemente de qual citação você tiver lido sobre o camarada Mao ridicularizando o Dalai Lama ou dizendo que religião é veneno. Até hoje, de acordo com Grunfeld, que acompanha a mídia chinesa com olhar de falcão, aparecem artigos ocasionais mencionando a possibilidade de conversações e de um possível retorno do Dalai Lama, criando uma impressão favorável sobre o suposto inimigo número um do governo. Mas artigos como esse desaparecem após alguns dias.
“Agora é interpretado como heresia dizer que pode haver forças positivas dentro da China com as quais podemos nos envolver”, diz Barnett. Mas no final dos anos 70 e início dos 80, principalmente, uma China reformista, envergonhada e admitindo as falhas cometidas nos anos maoístas, fazia uma oferta honesta e clara de reforma e reconciliação no Tibete. Motivada em parte por uma missão de levantamento de dados comandada por Hu Yaobang in 1980, um ano antes de ele se tornar presidente do Partido Comunista Chinês e dois anos antes de se tornar Secretário Geral do partido (uma posição que ele manteve até 1987), os chineses reconheceram que haviam aniquilado a cultura tibetana sem levar nenhum tipo de desenvolvimento à região.
Na linha de frente da reforma de 1978 a 1992, Deng Xiaoping era famoso por ter sensibilidade cultural acentuada, tendo ajudado a repatriar inúmeras peças de arte de volta ao planalto tibetano e reformado mosteiros durante a década de 1980. Juntos, Xiaoping e Yaobang abriram a Região Autônoma do Tibete para o turismo e o jornalismo e ainda permitiram a volta de lamas exilados para que pudessem reconstruir seus monastérios e liderar ações beneficentes em suas comunidades. No final do governo de Xiaoping, foi até mesmo autorizado que o líder espiritual elevado da tradição Kagyu, o Karmapa Lama, reencarnasse sob os auspícios de monges internacionais e com as bênçãos da China.
“Achamos que o Dalai Lama foi aconselhado … por um comunista tibetano muito famoso que tinha uma posição de destaque em Pequim”, diz Barnett, “que o aconselhou fortemente a conduzir essa abordagem (Caminho do Meio) com base em princípios marxistas. Como esse famoso intelectual tibetano observou — e ele tinha passado 18 anos na cadeia por ter feito a observação no momento errado, no final da década de 1950 — versões internacionais do comunismo não veem problemas na autodeterminação e na descoberta das nações por suas próprias formas de comunismo. E existem muitos exemplos disso nos primórdios do comunismo, particularmente no Leninismo. Havia um argumento que podia ser feito sobre esse assunto em Pequim. E a percepção que isso ainda importava no início dos anos 1980”.
Mas o Dalai Lama cometeu alguns erros de cálculo que acabaram por desacreditar e expor seus parceiros oportunos em Pequim. Em 1989, finalmente morreu no Tibete o 10º Panchen Lama, que havia ficado na China trinta anos antes para tentar trabalhar com o governo e havia passado por uma montanha russa (ou chinesa) de prisões, sentenças suspensas e re-elevações.
“O Dalai Lama foi convidado pela Associação Budista para ir à China para participar das cerimônias fúnebres”, diz Grunfeld. “O tempo concedido para a visita seria de poucas semanas… e também havia sinais de que ele poderia conversar com Deng Xiaoping.”
Mas o retorno poderia ser interpretado como um reconhecimento do status quo, comparável a jogar o povo debaixo de um ônibus em movimento.
“Ele decidiu não ir”, conclui Grunfeld. “E foi um grande erro. E ele mesmo admitiu que foi um grande erro. As pessoas que seguiam uma linha mais dura puderam dizer: Tá vendo? Ele não veio. Ele não está interessado. Ele ainda está trabalhando com a CIA”.
Mesmo assim, cinco anos mais tarde, em 1994, a China autorizou os discípulos do Panchen Lama a entrar em contato com o Dalai Lama, para que, juntamente com o governo chinês, chegassem a um acordo sobre a reencarnação da segunda figura mais importante do budismo tibetano. Antes de conferir as intenções da China, o Dalai Lama declarou unilateralmente seu próprio candidato como a reencarnação do Panchen Lama, o que levou ao rapto da criança e à prisão dos seus discípulos.
Alguns elementos das exigências tibetanas pela independência jamais seriam aceitos: a criação de uma nova região autônoma englobando todos os 6 milhões de tibetanos no Tibete, incorporando as fronteiras das províncias de Gansu, Qinghai, Sichuan e Yunnan, em vez de apenas negociar a situação dos 3 milhões de tibetanos que vivem na RAT; a concessão de direitos para a mobilização militar na região estratégica; e o abandono do controle direto sobre o desenvolvimento econômico de uma região muito maior do que Hong Kong ou Taiwan. Mas pelo menos antes esses pontos poderiam ter sido negociados. Agora os chineses simplesmente rejeitam completamente o Caminho do Meio. Citando declarações feitas pelo Dalai Lama na década de 1960 e frases ditas por seus simpatizantes que exigem a independência total, os chineses dizem que a proposta promovia um separatismo disfarçado e desonesto e também acusam o Dalai Lama de organizar distúrbios como o movimento guerrilheiro dos anos 1960 e as revoltas de 2008. Segundo um relatório sobre assuntos tibetanos divulgado em 2008 ao Congresso Americano, o governo chinês declarou publicamente que o Dalai Lama é “um chacal e um lobo vestido (em trajes de monge) e um demônio perverso que é um animal em forma humana”.


Turista com broche do Dalai Lama próxima ao templo Tsuglagkhang. Imagem: Zishaan Latif.

Dinheiro E Fé.
Por algum tempo, parecia que a China tinha uma alternativa viável — e universal — para negociações com o Dalai Lama, de forma a dispersar o potencial para violência futura, convencer os tibetanos a aceitarem a cidadania chinesa e resolver a questão do Tibete de uma vez por todas: dinheiro. Muito dinheiro.
“Mais dinheiro vai para o Tibete do que para qualquer outra minoria nacional”, afirma Grunfeld.
Somente em 2009, o governo chinês dedicou US$ 3 bilhões ao desenvolvimento tibetano — um valor quase igual em um ano ao que havia sido investido (US$ 4,2 bilhões) entre 1952 e 1994. Essas subvenções, de até 90 % de receitas locais governamentais, financiaram estradas e ferrovias ligando o Tibete ao continente, salas de aula modernas e educação gratuita, e até mesmo programas de estudos culturais, apesar das acusações de genocídio cultural. E todo esse investimento é visível nas ruas de uma cidade como Darzêdo (Kangding, em mandarim).
A cidade é habitada por proporções quase iguais de tibetanos e pessoas da etnia Han. Darzêdo fica na borda do planalto de Sichuan, a histórica junção entre as culturas tibetana e Han e o ponto de estrangulamento de uma importante rota de transporte de chá. A cidade é longa, dividida em dois por um rio estreito, porém ensurdecedor, cercada por montes íngremes dos dois lados e cujo crescimento urbano tem sido vertical nas últimas décadas. Edifícios de muitos andares, luzes de neon, murais e estátuas de todas as etnias da região convivem pacificamente com lojas que vendem mantos de monges como lembranças para turistas. As ruas apinhadas mostram que a cidade é um ponto de encontro para os mochileiros da etnia Han em seu caminho para uma jornada comercial e espiritual de descoberta da altitude. Albergues e cafeterias são decorados com mesas de madeira artificialmente rústicas, onde é servido café italiano importado (e bolo de cenoura, já que nenhum estabelecimento tibetano de classe média parece se sentir completo sem ter bolo de cenoura no cardápio) e também onde são vendidas joias extremamente caras feitas à mão, em estilo aproximado às tradicionais.
Além da agitação e das luzes, no entanto, tibetanos mais velhos, abatidos e encurvados, andam pelas barracas de rua que vendem bolinhos típicos e tubérculos protuberantes e roxos, de aparência quase obscena. Monges com mantos sujos da cor laranja, lenços ao redor de seus rostos e viseiras na cabeça (menos em números do que em 1950, mas tolerados pelo governo se viverem de acordo com suas regras) vagam pelas ruas geladas como espíritos, em contraposição às jaquetas, jeans e maquiagem dos jovens. Um deles digita em um iPhone novo comprado em uma boutique envidraçada, o outro dedilha o rosário comprado em um templo local — um prédio pequeno e discreto em uma praça, obscurecido por um banco de um lado e um supermercado do outro, perto do centro da cidade. A riqueza que alimenta esta transformação rápida melhorou drasticamente a qualidade de vida. Sistema de aquecimento confiável, conexão à internet em todos os lugares e energia elétrica de forma consistente são serviços prestados ali que não deixam nada a dever a metrópoles como Chengdu, que fica a sete horas de distância.


Darzêdo simboliza a tentativa chinesa de dominar os tibetanos pelo dinheiro. Imagem: Mark Hay.

No entanto, a cidade se parece muito com o capitalismo agressivo vomitado sobre todo o Ocidente. É como se o espaçoporto de Mos Eisle (de Guerra nas Estrelas) tivesse passado por uma reforma. Como todos os projetos de desenvolvimento da China na região, é benéfico no papel e bonito em uma noite fria, mas é desagradável e insensível, quase ofensivo. Os tibetanos olham para Darzêdo e veem a invasão de pessoas da etnia Han colhendo os benefícios de empreendimentos nocivos ao meio ambiente, fazendo que se tornem uma minoria em sua própria terra, ignorando leis estatais (Artigo 4 da constituição chinesa e artigo 37 da Lei sobre Minorias Nacionais de 1984, que garantem o uso e a segurança do idioma de uma minoria) para forçar o uso do mandarim e beneficiando-se, de forma desproporcional da “disneyficação” de seus locais sagrados. Dentro dos templos de Darzêdo e em outros locais, os turistas Han falam em seus celulares em paredes de orações, tiram os monges da meditação para fotografá-los e andam no contra fluxo dos peregrinos, de uma forma que parece ser muito mais culturalmente degradante do que em prol do desenvolvimento econômico.
Uma dessas atrações religiosas anestesiadas e destituídas de personalidade pode ser encontrada nos limites de Darzêdo: a Montanha Paoma. Uma clássica canção de amor chinesa fala sobre o local, fadas, duendes e tantos tipos de fantasia açucaradas que é até difícil prestar atenção na letra por muito tempo. Em homenagem à música, um anfiteatro e um jardim foram construídos no final dos anos 2000 no alto da montanha, onde é possível chegar de teleférico. Ali, um fluxo contínuo de turistas faz piqueniques, passeia de pônei e assiste a apresentações de grupos de música e dança folclóricos e culturalmente padronizados. Mas acima do anfiteatro, no final da escadaria tortuosa de pedras talhadas que leva a uma altura de cerca de 300 metros e é ornamentada nas laterais por pequenos montes de pedras de oração e bandeiras coloridas presas às árvores, existe um templo no cume da montanha, com uma vista privilegiada para o vale que se estende até as planícies férteis de Sichuan. É um lugar deslumbrante, mas com uma estrutura desgastada, claramente ignorado pelos empreendedores que visam os turistas abastados que gastam dinheiro no anfiteatro. Apenas um ou dois monges circulam pelo templo — um número muito inferior às pessoas da etnia Han que circulam pela barraca de lembranças posicionada em um vestíbulo em frente a uma parede de orações, fiscalizada por um dos funcionários do partido instalados em todos os templos hoje em dia para supervisionar as atividades e as finanças dos monges.
Essas “equipes de trabalho” fazem parte de uma tendência paralela que enfraquece a estratégia chinesa de chegar aos corações e mentes por meio da riqueza. A partir do início da década de 1990, após os tibetanos terem começado a ignorar regras e a realizar grandes protestos de 1987 a 1989, que levaram ao fim das experiências com liberdades individuais e à decretação da lei marcial, o Estado chinês iniciou políticas que proibiam que o nome do Dalai Lama fosse mencionado, lançando campanhas de educação patriótica e expandindo o aparato de segurança do governo. A princípio isoladas em confrontos experimentais na Região Autônoma do Tibete, as políticas se espalharam em 2007 para as regiões mais tranquilas de Amdo e Kham, provocando os agora famosos protestos pan-tibetanos de 2008 — um sinal claro de que, independentemente de quanto dinheiro entrava na região, os moradores não achavam que fosse o suficiente para comprar sua anuência em relação a um regime controlador. E, mesmo após os protestos terem acabado, os chineses continuaram atacando as liberdades pessoais e religiosas.
Barnett acredita que “provavelmente estão mentindo para o governo de Pequim, já que (como diz o provérbio chinês), as montanhas são altas e o imperador está longe… ou simplesmente eles não pensaram bem sobre as consequências de algumas decisões das quais eles provavelmente se arrependerão”.
Mas também é perfeitamente possível que os chineses acreditem em sua própria propaganda: se eles continuarem a fornecer bens materiais, as pessoas irão se acostumar ao controle da religião por parte do Estado, esquecerão as humilhações do passado e irão assimilar o projeto do governo chinês.

Negociar Consigo Mesmo.
Determinados a não permitir o desenvolvimento de lideranças locais, não pertencentes ao Partido Comunista, o governo chinês aparentemente ainda acredita que precisa de um parceiro popular com quem negociar para dominar o Tibete, desencorajando as rupturas e a violência, especialmente depois que o Dalai Lama morrer e a liderança sobre o povo tibetano for colocada em xeque.


Um jovem monge durante oração em um centro de estudos budistas, em Dharamsala. Imagem: Zishaan Latif.
“Certamente existe uma preocupação intensa sobre quem será o próximo líder”, diz Barnett. “Acredito que eles acham que não podem governar o Tibete sem uma figura mágica e carismática que fará isso para eles. A ideia é engraçada para um marxista, mas parece que é a visão deles, que não é discutida. Parece que eles acham que é preciso ter um lama… A obsessão do líder do partido em encontrar crianças pequenas e gerenciar estas crianças para que se tornem líderes religiosas é, na verdade, uma forma inconsciente de mágica”.
“Eu não sei por que eles fazem isso”, continua Barnett, erguendo as mãos num sinal de confusão e desânimo. “Porque isso tem falhado sempre. Se eles olhassem para trás, diriam: oh, meu Deus, todas essas pessoas acabaram se tornando tibetanos muito leais! Independentemente do quanto eles diziam que amavam o Partido Comunista quando eram jovens, agora eles dizem que não podem tolerar nossas políticas relativas à religião, e eles desertam e nos criticam! Mas mesmo diante de tudo isso, eles continuam a fazer as mesmas coisas. É fascinante”.
Essa tendência vem desde os tempos do 10º Panchen Lama, que, em 1959, optou por ficar na China e trabalhar com os comunistas. Mas apenas três anos depois, em 1962, chocado com o declínio da liberdade religiosa e cultural no Tibete, divulgou uma gigantesca petição exigindo reformas no Partido Comunista Chinês. Mao destituiu o Panchen Lama do cargo e o mandou para a prisão naquele ano. Ele só veio a ser libertado durante o governo de Xiaoping, por volta de 1977, e foi levado de volta ao poder após se casar com uma mulher da etnia Han em 1982. Mas logo após denunciar ofensivas chinesas durante a época dos conflitos no final dos anos 1980, ele morreu subitamente, levantando suspeitas de envenenamento.
Depois, tentaram novamente, desta vez desde o princípio, com seu Karmapa Lama, endossado pelo governo. Oficialmente a terceira figura mais importante na hierarquia do budismo tibetano e líder espiritual da ordem Kagyu, esse Karmapa nasceu em 1985 no Tibete e foi abençoado tanto pelo Dalai Lama quanto pelo governo chinês. Ele foi entronizado em 1992 e era frequentemente exibido com autoridades do Partido Comunista, o qual ele elogiava publicamente. Mas, de forma surpreendente, em 1999, o rapaz de 14 anos pulou de sua janela sobre um cavalo que o esperava e fugiu do país. Nos quinze anos seguintes, do exílio, fez críticas severas ao Partido Comunista.
O único lama importante e leal que o partido tem em suas fileiras é o 11º Panchen Lama, escolhido pelas autoridades. De acordo com informações de grupos tibetanos e de acadêmicos ocidentais, ele é tão odiado entre os tibetanos que é obrigado a viver em Pequim e a andar cercado por uma escolta armada quando viaja ao Tibete.
Com essa situação em mente, diz Shakya, “eles têm o poder de indicar seu próprio Dalai Lama, mas essa figura não terá autoridade aos olhos do público”. Eles ainda indicarão um Dalai Lama, no entanto, mesmo se uma outra reencarnação for localizada no Tibete porque, concluiu Shakya, “o que é mais importante do ponto de vista dos chineses é garantir a autoridade do governo”.
“Provavelmente eles sabem que existe o risco de que todas as cidades serão destruídas completamente e uma carnificina irá acontecer”, diz Barnett. “Esse é o risco final e eles dizem que podem lidar com uma situação como essa. Eles podem, mas isso terá um preço… Já foi iniciada uma nova política de rotação de tropas — permanentes e de longo prazo — no planalto, portanto os soldados já estão ajustados à altitude”.
E, quando a poeira baixar, os chineses terão um punhado de lamas impopulares para abençoar seus próprios negócios. Esses lamas podem ser impostos aos monastérios do Tibete por meio da força ou pela persuasão, usando subornos para fazer com que as pessoas se acostumem a eles. Talvez eles tenham sorte e deparem-se com um monge leal e carismático. Ou talvez eles não tenham sorte, mas pelo menos eles se sentirão legitimados por eles mesmos, confiantes em seu controle e capacitados para ignorar quaisquer reencarnações externas, tirando a relevância da potencial décima quinta reencarnação do Dalai Lama e lentamente desgastando a determinação dos tibetanos dentro e fora do Tibete.


Um vendedor de rua aguarda clientes em Dharamsala. Imagem: Zishaan Latif.

De volta a Dharamsala, os tibetanos ficaram frustrados com a contínua insistência do Dalai Lama com a (aparente) civilidade, pacifismo e passividade, levando em consideração a agressão por parte da China. Até mesmo Tenzin Phuntsok, o Secretário para Assuntos Internacionais do Partido Democrático Nacional do Tibete, o único partido político atuante da comunidade no exílio, já não aguenta mais o Caminho do Meio e diz isso de forma franca. Phuntsok é um homem de 29 anos que aparenta ter 40 devido às rugas ao redor dos olhos, o cabelo assentado com brilhantina e o colete de lã que usa no escritório, adornado por um pequeno button com o símbolo do partido — uma iaque sorridente. Ele é tranquilo, seguro de si e está sempre sorrindo com ansiedade e animação. Então, mesmo destroçando a plataforma oficial da Administração Central Tibetana, com a qual concordam muitos filiados e candidatos do seu partido, ele faz isso com um sorriso no rosto, como se tudo fosse uma piada autoexplicativa e cósmica.
“Se batalhamos por direitos culturais e religiosos, como defende o princípio do Caminho do Meio”, diz Phuntsok, “então já obtivemos muitos direitos [aqui] na Índia… o Caminho do Meio já é aqui!”.
Ou seja, qual o sentido de ajoelhar-se diante da China, que nem ao menos nos dará o que já é nosso? Até membros permanentes da ACT, como o membro do Parlamento Karma Chophel e o Presidente Adjunto Dolma Gyari, já questionaram publicamente a legitimidade e os méritos da filosofia da doutrina defendida por Dalai Lama e propuseram, em vez disso, a independência total.
Manifestantes montaram murais com bandeiras exigindo um Tibete totalmente independente e fotos de tibetanos furiosos, gritando. Estudantes foram às ruas com mais gritos e espalhando panfletos convocando para manifestações em favor da independência. Organizações como o Congresso Nacional do Tibete, o Partido Rangzen (que significa “independência” no idioma tibetano) e a Aliança Rangzen agora se reúnem regularmente em fóruns e convenções públicas — até mesmo na Biblioteca de Arquivos e Trabalhos Tibetanos, que fica no complexo da ACT, no meio do caminho entre McLeod Ganj e Dharamsala. Eles estão manobrando a situação com astúcia e garantindo o futuro.
“Se você olhar para as gerações mais jovens”, diz Phuntsok, “a maior parte quer a independência”.
No momento, esses grupos continuam a respeitar a persistência do princípio do Caminho do Meio e seguem o caminho da não violência pregado pelo Dalai Lama. Contudo, organizações como Estudantes por um Tibete Livre já estão desobedecendo à regra de ouro do Dalai Lama sobre o benefício mútuo — ele diz que nenhuma solução deve ferir os interesses da China e sim aprofundar as pautas dos dois lados interessados.
“Nosso objetivo de longo prazo é fazer com que a ocupação chinesa do Tibete se torne cara demais para ser mantida”, diz Jyotsen Sara George, diretora de campanha do movimento Estudantes por um Tibete Livre na filial em Dharamsala. O grupo prega a ação direta na solidariedade aos apelos pela independência do Tibete. A diretora é de origem indiana, tímida e de voz suave, porém muito franca e pragmática em seu idealismo. “Queremos assegurar que o Tibete seja uma pedra no sapato quando as autoridades chinesas fizerem visitas internacionais”.
Rompendo com os dogmas éticos do Dalai Lama, o movimento pró-independência quer que a China sofra — politica, econômica e socialmente.
Enquanto isso, tibetanos dentro do Tibete estão, pouco a pouco, ficando isolados do movimento mais amplo.
“A região da fronteira está muito, muito limitada agora”, diz Chhinjor. “Sempre tinha umas 800 ou 900 pessoas no centro de recepção de refugiados [em Dharamsala]. Mas se você for lá agora, está completamente vazio… especialmente desde 2008 ou 2009”.
Mesmo com dificuldades para serem transmitidas entre a Índia e o Tibete, as informações chegam, mas somente as histórias mais cruéis. “Algumas mensagens embaralhadas aqui e acolá e alguns protestos incipientes”, conta Barnett sobre o que consegue passar pela fronteira. “E todas as pessoas no exílio discutem para chegar a uma conclusão sobre o significado e a veracidade das mensagens enviadas”.
Sozinhos e sofrendo crescente pressão, esses tibetanos começaram a apelar para a realização de protestos mais desesperados, como autoimolações. Desde 2009, mais de 130 pessoas — que tenhamos conhecimento — beberam ou jogaram querosene sobre o corpo, ou fizeram as duas coisas, e depois, de forma calma e deliberada, acenderam um fósforo perto da pele. Os manifestantes ficam placidamente sentados enquanto queimam ou correm pelas ruas para que suas imagens carbonizadas sejam vistas por muito mais pessoas do que apenas os espectadores curiosos, mórbidos ou horrorizados. As imolações estão se espalhando pelo campo e por diferentes setores da sociedade. Eles ficam impassíveis diante do prospecto de autonomia e não pretendem continuar a suportar as humilhações com elegância e serenidade.
E se o Dalai Lama morrer no exterior, sem nunca ter retornado para casa ou ter avançado em negociações, e sua reencarnação for contestada por um substituto indicado pela China, esses manifestantes podem voltar a atacar, transformando todo o ódio e determinação em uma expressão de resistência claramente direcionada para as autoridades chinesas.
“Não estamos preocupados com a comunidade no exílio”, diz Chhinjor. “Mas estamos preocupados com o Tibete”.
O próprio Dalai Lama permanece neutro sobre as frustrações dos grupos pró-independência e das novas táticas de protesto no Tibete. Ele já declarou várias vezes seu desconforto quanto ao praticantes da autoimolação, temendo que o ódio que alimenta esses atos possa facilmente se transformar em violência. Ele permanece publicamente resoluto em sua fé no Caminho do Meio, confiante em sua capacidade de negociar uma autonomia genuína, acabar com as pressões sobre os tibetanos e validar a luta dos exilados — tudo isso antes de morrer. Mas todos esses boatos são sinais de uma preparação para a ruptura, uma impaciência clamando por ação e uma urgência de deixar para trás a breve era espiritual do Dalai Lama.
“Já existe uma inclinação rumo ao conflito”, diz Barnett”. “Já temos demonstrações disso. E o Dalai Lama vai morrer um dia. Isso certamente nos colocará de volta em uma situação de incerteza”.
“Isso sempre causou problemas na história do Tibete”, diz Shakya. “Como sua influência tem sido tão imensa, nenhum outro líder pode surgir enquanto o Dalai Lama ainda estiver ativo… Os tibetanos não estão preparados para uma liderança alternativa”. E se isso for verdade, o Dalai Lama deve se preocupar, porque o espaço que ele conquistou para o diálogo irá se dissipar enquanto esse descontentamento cresce em sua ausência.

Um Líder De Açúcar.
A resistência do Dalai Lama em dar muita importância à sua reencarnação provavelmente é devida, em parte, ao fato de que ele conhece a fragilidade e os riscos envolvidos em colocar o futuro de nações inteiras — principalmente de crianças inocentes — nas mãos de homens falíveis. Famoso por ser extremamente autocrítico, no texto escrito em 2010 Sabedoria Antiga; Mundo Moderno, Sua Santidade admite a respeito de si mesmo:
“Apesar da minha serenidade habitual hoje em dia, eu era bem exaltado antigamente e propenso a ter ataques de impaciência e, algumas vezes, de raiva. Mesmo hoje, ainda existem situações nas quais eu perco a compostura”.


Um monge acende velas em um templo budista em Dharamsala, na Índia. Imagem: Zishaan Latif.
Além das falhas pessoais, ele também reconhece já ter cometido alguns erros terríveis na condição de ser humano, independentemente de carregar ou não uma chama divina. Entre os erros reconhecidos está o fato de ter dado apoio ao culto Aum Shinrikyo (Ensinamento da Verdade Suprema) no Japão, antes de membros do grupo terem realizado um atentado com gás sarin no metrô de Tóquio em 1995. O grupo dizia seguir escrituras budistas.
“Há bastante tempo ele vem dizendo que nem tudo deve depender apenas de uma pessoa”, diz Chhinjor. “E o que ele está dizendo agora é: façam as coisas como se não existisse nenhum Dalai Lama”.
Quase desde que chegou ao exílio, o Dalai Lama planejou criar um governo democraticamente eleito para fugir do histórico tibetano de instabilidade política e desequilíbrios de poder. Fundado em 2 de setembro de 1960, o Governo no Exílio (agora a ACT) esforçou-se para formar um Parlamento baseado em cotas de representação. O mesmo número de assentos foi reservado para aqueles nascidos (ou descendentes dos que nasceram) em cada região e para membros de todas as escolas do Budismo e da religião Bön. Tal distribuição foi pensada para evitar que um excesso de poder fosse concedido à região natal do Dalai Lama — Ü-Tsang — ou à linhagem Gelugpa, que são os maiores blocos tanto no Tibete quanto no exílio. Mas até o final do século XX, o Dalai Lama permaneceu como chefe de Estado, com o poder executivo de nomear ministros, administrar o gabinete e controlar o Sikyong (Primeiro Ministro).
Mas, em 2001, o Dalai Lama começou a se referir ao Sikyong como seu patrão e deixou de nomear ministros. E nos anos seguintes, ele se distanciou da política, descendo cada vez menos as colinas para ir de Tsuglugkhang até a base governamental. Em 2011, ele propôs algumas mudanças no estatuto da Administração Central Tibetana, incluindo uma que o retira completamente do processo político, rechaçando até mesmo um papel honorário como monarca constitucional.
“Eu prefiro ter um pouco de liberdade”, declarou ele na época. “Talvez, apenas talvez, eu gostaria de me tornar um professor espiritual de verdade, um lama trabalhador!”, em vez de um líder político.
A retirada foi feita de forma irreverente, porém tranquila, coerente com a figura pública, bem humorada e calma do Dalai Lama. Mas a atitude transformou meio milênio de história política.
“Ele eliminou formalmente a função de Dalai Lama na política para sempre”, diz Barnett. “Ele transformou a política tibetana em um sistema secular, o que é um feito muito maior do que as pessoas parecem perceber”.
Após a saída do Dalai Lama, foi realizada uma eleição livre para a escolha do primeiro Sikyong totalmente independente. Lobsang Sangay, um acadêmico educado em Harvard e nascido no exílio, teve uma vitória retumbante e assumiu o poder, substituindo o ministro/monge Samdhong Rinpoche. Olhando para o homem de rosto anguloso e porte sólido, é fácil perceber porque Sangay saiu vitorioso na votação. Ele fica muito bem de terno, parece ter uma aparência permanente de profunda introspecção e em todas as fotos parece estar a ponto de fazer um grande sermão em uma montanha. Em resumo, ele é o tipo de homem charmoso que poderia fazer propaganda de whisky, mas ainda precisa provar sua competência e relevância na política tibetana.
O Dalai Lama e quase todos os porta-vozes da ACT têm muitas esperanças de que a eleição de um líder irá reunir as pessoas em torno de um processo e de uma instituição, e não em torno de uma pessoa carismática.
De acordo com Phuntsok, para isso acontecer é preciso “falar sobre responsabilidades” e sobre o processo eleitoral “que irão unificá-los”.
Também acredita-se que existam muitas provas, tanto entre os tibetanos no exílio quanto no Tibete , de que foi aceita a ideia do Sikyong como força renovadora de liderança.
“Antes somente pessoas mais velhas se envolviam com o governo”, diz Phuntsok. “Agora, se você for à ACT, você vai encontrar muitas pessoas da minha idade… eu e o presidente somos quase da mesma idade”.
“A mensagem foi enviada ao Tibete”, acrescenta Chhinjor. “A foto do Sikyong também está no Tibete”, circulando ao lado das fotos clandestinas do Dalai Lama, dadas como prêmios em rifas e o nome dele é mencionado em canções como as de autoria do poeta Gho Gangga, de Shakchu. “Este Sikyong tem uma personalidade dinâmica e uma formação muito boa. Ele estudou na Universidade de Harvard. Isso significa algo em todo o mundo, sabe?”
Quando Narendra Modi convidou Lobsang Sangay para sua cerimônia de posse como Primeiro Ministro da Índia em 2014, na qual ele se se sentou, elegante e estiloso ao lado de importantes líderes sul-asiáticos, o fato deu esperanças a muitas pessoas de que a comunidade internacional também estava aceitando o governo do Sikyong. Em vez de discutir teologia com burocratas chineses, a comunidade tibetana poderia descansar, sabendo que um gabinete de liderança permanente, secular e legítima existia para unir o Tibete, perpetuar a não violência e levar adiante os diálogos com a China.
Mas foi tudo ilusão. Sangay, cuja família mora em Boston, não obteve reconhecimento internacional e tem pouca experiência prévia de liderança. Além de sua conduta gentil, sua retórica é considerada vazia. Ele pode ser comparado a açúcar — algo que proporciona uma rápida sensação de prazer e uma promessa de algo mais doce e mais substancial, porém fugaz e rapidamente irritante quando consumido puro em altas doses.
“Ele não é muito popular”, diz Grunfeld, assinalando a diferença entre sucesso eleitoral e carisma genuíno. “Ele venceu. Foi eleito democraticamente. Mas é criticado por muitos e não tenho certeza se conseguirá unir a comunidade”.
Ideologicamente, faz sentido o desejo do Dalai Lama de colocar sua fé e a liderança da comunidade em um órgão democraticamente eleito. A Administração Central Tibetana é robusta, menos frágil e substituível do que um único homem. O órgão atua de acordo com as regras internacionais de legitimidade.
Em termos práticos, contudo, o processo provavelmente terá o mesmo nível de aceitação que qualquer outra opção e produzirá uma pessoa inflexível e formal. No momento, a ACT anda aos trancos e barrancos, mantida pelo apoio e legado do Dalai Lama. Mas quando se encontrar sob pressão verdadeira e enfrentar conflitos internos, as chances são as mesmas, tanto de que a estrutura democrática ajude as forças de fissão e discordância ou de que ela ajude a manter a comunidade unida.

Um Dalai Do Rap.
O poder politico do Dalai Lama se estende por cinco séculos. O 14º Dalai Lama é o Dalai Lama que está há mais tempo no cargo. Seus seguidores o chamam de Kyabgon (salvador) ou de Kundun (a presença). E, de acordo com Mecacci, pesquisas indicam que ele tem uma taxa de aprovação de mais de 90 por cento em grande parte da Europa Ocidental. Isso requer um nível de apoio que quase nenhum outro líder pode igualar.


Jovem monge budista caminha pelas ruas de Dharamsala. Imagem: Zishaan Latif.

“Nem mesmo um líder eleito tem esse tipo de grandeza perante o público”, diz Shakya. “E será difícil criar isso”.
Apesar de ter deixado oficialmente sua função de liderança, seus seguidores se recusam a deixar que ele se vá.
“Minha geração, tanto dentro quanto fora do Tibete”, diz Chhinjor, “ainda acredita que o Dalai Lama é tudo. Política e espiritualmente, ele ainda é nosso líder supremo… ele é o símbolo da unidade (do Tibete)”.
Ele é necessário.
Esse poder ajuda a sustentar a ACT neste momento. “Não importa o que o Dalai Lama signifique, existe um apoio genuíno para tal”, diz Shakya.
Phuntsok acrescenta que ele acredita que, se o governo algum dia realizar eleições para presidente — um cargo que existe no estatuto, mas que nunca foi implementado, “o posto seria conquistado por Sua Santidade. Mesmo se ele fosse contra a decisão, ele sempre ganharia o cargo”.
Independentemente de ele gostar ou não, a comunidade tibetana acredita que apesar de ser bom ter uma instituição democrática forte, o Tibete ainda precisa do Dalai Lama. Não existe ninguém capaz de assumir seu papel: tanto como uma pessoa que tem influência junto aos chineses e também como uma pessoa com a legitimidade para promover a unidade e guiar o movimento. Então, de alguma forma, o Dalai Lama terá que cumprir as obrigações de seu ofício, servindo à comunidade quando necessário, tentando transferir sua legitimidade aglutinadora para a nova geração quando ele morrer.
Quando completar 90 anos, o atual Dalai Lama poderá deixar um procedimento detalhado especificando as áreas nas quais ele reencarnará e os processos a serem usados para localizar e educar seu sucessor. Mas nada disso será capaz de impedir as autoridades chinesas de indicarem seu próprio Dalai Lama, em vez daquele escolhido pela comunidade exilada.
O governo chinês não conseguirá impedir que as imagens de um novo Dalai Lama no exílio cruzem as fronteiras. E Lhakdor, seu ex-tradutor, insiste que, “se você é uma pessoa instruída e capaz de usar o bom senso e que não é facilmente influenciada por pessoas que dirão que são uma reencarnação ou um ser supremo”, então você não será enganado por ele e tampouco aceitará o Dalai Lama chinês.
Se os chineses não conseguirem persuadir a comunidade tibetana a rechaçar totalmente uma reencarnação no exílio e fazê-la aceitar a opção patrocinada pelo Estado, mesmo assim eles podem causar muitos problemas, declarando o exílio ilegal, convencendo países menores a reconhecer seu candidato e não o da comunidade exilada e promovendo uma feroz perseguição dentro do Tibete aos seguidores do Dalai Lama exilado.
No entanto, existe uma outra opção para a consciência do Dalai Lama. Trata-se de uma obscura doutrina religiosa, conhecida como emanação. É preciso deixar a mente viajar um pouco para entender o conceito, mas Lhakdor tenta explicar da melhor maneira possível:
No budismo tibetano, a consciência não é como uma alma imutável e unificada. Ela é uma coisa difusa e conceitual — ela pode ser moldada do jeito que você quiser, se você tiver controle sobre ela. É como um córrego. Pode ser desviado, mudar de forma, a água pode fazer espuma ou ficar calma, mas ainda é um córrego. É a mesma coisa adaptada para diferentes objetivos.
Portanto, Lhakdor diz que, “quando você alcança esta grande percepção (como um ser iluminado), você pode se manifestar não apenas em seres humanos, mas também na forma de uma ponte ou na forma de alimentos, dependendo de como você pode servir aos outros da melhor maneira”.
Também é possível — preste atenção — transferir a essência, consciência, autoridade e santidade de uma pessoa para outro ser vivo. Normalmente é uma criança nascida antes da morte do lama superior em questão, o que explica as discrepâncias temporais nas buscas por uma reencarnação. Mas também pode ser um adulto ou até mesmo vários adultos.
O Dalai Lama já apresentou e defendeu publicamente o conceito de emanação. Isso significa que ele concedeu a si mesmo uma permissão para transferir sua santidade e outorgar sua legitimidade, teoricamente, a um líder tibetano já estabelecido, em vez de passar tais atributos para uma criança que teria seu carisma questionado no futuro (sem levar em conta os 20 anos de treinamento espiritual pelo qual essa criança teria que passar para ser minimamente aceita pelos olhos tibetanos e toda uma vida que levaria para que a comunidade internacional tratasse essa nova pessoa com o mesmo respeito que tratava seu antecessor). Com a emanação, o Dalai Lama também pode usar sua aura para aprimorar e elevar alguém que já está percorrendo seu próprio caminho de popularidade e poder. Ou ainda, se quiser, ele pode conceder um pouco da sua aura de liderança a cada um dos tibetanos.
A melhor aposta no momento seria que, se o Dalai Lama emanar, ele passará sua autoridade e o máximo de seu poder para o 17º Karmapa Lama, o rapaz que pulou da janela aos 14 anos, fugindo da China para a Índia em um cavalo, surpreendendo as autoridades comunistas que tomavam conta dele. Nascido Apo Gaga e agora chamado Ogyen Trinley Dorje, o rapaz se tornou um homem de 29 anos, alto, forte e inteligente cujos ensinamentos atraem dezenas de milhares de pessoas.
Ele também escreve peças de teatro e gosta de música do estilo rap. Frequentemente, ele aparece ao lado do Dalai Lama em eventos públicos. Extremamente popular com os tibetanos de todas as estirpes — às vezes ele é chamado de “Sua Gostosura” — o Karmapa reúne autoridade religiosa, o carisma que ultrapassa os limites de sua escola Kagyu, e uma serenidade e apelo às massas similar, embora ainda nascente, ao do seu amigo e mentor, o Dalai Lama.
O que é ainda mais importante é o fato de que as autoridades chinesas nunca tomaram nenhuma atitude contra Karmapa Lama após ele ter fugido. A porta foi deixada aberta para seu retorno e para a retomada das conversações com o governo chinês. Sangay e a ACT parecem apoiar a ideia de sua elevação como líder espiritual para servir ao lado deles, reforçando sua legitimidade.


Ogyen Trinley Dorje, 29 anos, é apontado como o próximo Dalai Lama. Imagem: Vasudev (Vas) Bhandarkar.

“O Karmapa é a pessoa perfeita para ser o intermediador de uma solução no futuro”, diz Barnett. “Esta é uma das pouquíssimas questões sobre a qual os exilados e as pessoas no Tibete concordam. Existe um enorme respeito pelo Karmapa”.
Mas as coisas não são assim tão simples. O Karmapa Lama é nitidamente desinteressado da ideia de assumir as funções do Dalai Lama.
“Não preciso de mais pressão”, disse ele uma vez a jornalistas. E, numa outra ocasião, afirmou: “Nem sei o que é política”.
Mas pode ser que a questão não tenha a ver com o descomprometimento pessoal do Karmapa Lama, e sim o reflexo do fato de que os tibetanos não podem tomar decisões sobre seus líderes espirituais durante um vácuo de poder religioso. Existem pressões vindas de todos os lados, exigindo cálculo político sobre o que pode e o que não pode ser feito e como isso pode ou não funcionar. E neste momento, fora a China, o grande problema sobre o qual ninguém quer falar em relação ao futuro da liderança política e espiritual no Tibete é o que o governo da Índia pensa sobre a progressão da alma do Dalai Lama.

Hora Do Check-Out?
Desde que começou a acolher exilados em 1959, a Índia tem sido um refúgio para todas as ações do Tibete. O desenvolvimento da ACT, o avanço da campanha internacional do Dalai Lama, a segurança e o espaço para formar uma comunidade unificada e o poder de negociação com a China, tudo isso só foi possível graças à boa vontade do governo indiano em abrigar o movimento tibetano. Contudo, agora mais do que nunca, já que quase todas as importantes nações do mundo — fora a Índia — reconheceram a soberania da China sobre o Tibete, a Índia é, de fato, o país mais importante para o futuro do movimento tibetano. E, cada vez mais, as autoridades indianas deixam claro que o futuro será incerto após a morte do Dalai Lama.
Apesar de todas as banalidades sobre amizade e vínculos históricos e culturais, existe um certo senso de distância e de antipatia em um lugar como Majnu ka Tilla, a colônia tibetana na divisa de Nova Déli, na Índia. Essas colinas eram tranquilas no passado e não foram perturbadas por reis indianos nem por empreendedores devido à malária persistente nas margens do rio Yamuna. A área foi batizada em homenagem a um eremita muçulmano que, quando não estava envolvido em devaneios e encantamentos, transportava pessoas em sua balsa para o outro lado do rio — na maioria Sikhs a caminho do gurdwara (templo sagrado) local. Como não viam utilidade para o porto fedorento, o governo indiano o cedeu de bom grado aos refugiados tibetanos no início dos anos 1960. Lá, os refugiados construíram uma série de casebres de gesso e alvenaria, separados do restante da cidade por um muro e por uma estrada e unidos à vizinhança próxima, a vila de Punjabi Basti, por apenas um caminho de pedestres adornado por bandeiras de orações.
Após a ascensão do Dalai Lama à fama, nos anos 1980, no entanto, o turismo espiritual injetou um pouco de riqueza à região. A moderna cidade de Majnu ka Tilla cresceu para cima sobre si mesma, com o objetivo de acomodar lojas de lembranças, empresas de ônibus, operadoras de turismo e hospedarias baratas. O crescimento desordenado foi tanto que não é mais possível ver a luz do sol nem o céu. É como uma cópia em miniatura da cidade murada de Kowloon, com prédios quase encostados, que acabam bruscamente nas margens da rodovia e do rio. A uma pequena distância da Universidade de Déli, esta “Pequena Lhasa” se tornou a Meca dos estudantes indianos que buscam comida étnica barata ou cafeterias relaxantes onde é possível tomar o chá tibetano típico, preparado com leite e manteiga de iaque, denso e salgado. Mas apesar desses visitantes e dos turistas ocidentais que fazem visitas rápidas, o lugar é solidamente tibetano.
O comércio é tibetano, os casais e famílias são tibetanos e as letras pintadas em estêncil nas laterais dos prédios são tibetanas. Diferentemente de Dharamsala, onde existe uma sensação de bem estar internacional, Majnu ka Tilla é um centro comercial que une uma cultura próspera e decididamente separada que administra seus próprios assuntos em solo indiano. Nas ruas ainda restam cartazes marcando a histórica visita do presidente chinês Xi Jinping à Índia em setembro de 2014. Xi Jinping é um estadista que a Índia tenta conquistar, com o objetivo de reaproximar os dois países. Mas, nesses cartazes, o líder chinês é retratado como um escorpião picando o Tibete ou com chifres de diabo, mexendo um caldeirão cheio de alguma substância tóxica desconhecida — uma imagem que não serve aos interesses nacionais mais conciliatórios.
“Não acho que o governo indiano esteja muito feliz em ter os tibetanos aqui”, diz Grunfeld. “Mas eles não têm escolha, não podem expulsar essas pessoas nem ignorá-los”. Mas, na verdade, o governo indiano poderia fazer todas essas coisas.
Os estudantes gostam das novidades, mas os motoristas de riquixás às vezes fazem zombarias ou tentam me dizer que o lugar é simplesmente uma favela perigosa. O governo indiano dizia que a terra pertenceria aos tibetanos pelo tempo que precisassem, mas em 2006 voltou atrás e afirmou que iria reclamar seus direitos sobre as margens do rio, derrubando parte dos prédios para expandir a estrada próxima e embelezar o rio Yamuna. Felizmente, um tribunal deteve a decisão em 2012, antes que os danos ou a expulsão dos moradores ocorresse. Ainda assim, o episódio é muito significativo.
Se não fosse por essa ambiguidade duradoura, é bem provável que o Dalai Lama tivesse fugido para a índia em 1956 e não em 1959. Foi em 1956 que a China autorizou o líder tibetano a viajar a Bodh Gaya, para celebrar o aniversário de 2.500 anos do Buda. Enquanto estava lá, o Dalai Lama disse ao Primeiro Ministro Jawaharlal Nehru que queria desertar. Mas o líder da ideologia política da Terceira Via queria manter um relacionamento forte com outro poder emergente asiático e convenceu o Dalai Lama a voltar para casa. Nesse contexto, é preciso entender que a Índia foi o primeiro país não socialista a reconhecer a República Popular da China em 1950, e só fez protestos amenos contra a invasão do Tibete. No entanto, quando o Dalai Lama finalmente deixou o Tibete em 1959, as autoridades em Nova Déli não tiveram outra opção a não ser aceitá-lo.
Ou, pelo menos, eles estavam bem abertos àquela opção devido às crescentes tensões na fronteira entre a Índia e a China. Desde a ascensão dos comunistas, a China reclamava a posse de um pedaço da cordilheira do Himalaia do tamanho de Luxemburgo, uma fatia do estado de Jammu e Caxemira do tamanho de Taiwan e todo o estado indiano Arunachal Pradesh, que é somente um pouco menor do que Portugal.


Narendra Modi, primeiro ministro da Índia, apoia o Dalai Lama, mas afaga a China. Imagem: Reprodução.

Os temores foram justificados pouco depois da chegada dos tibetanos quando, em 1962, Índia e China entraram em guerra numa disputa por fronteiras. A China ganhou facilmente, mas voltou para a fronteira anterior voluntariamente, em um sinal de boa vontade e de abertura para negociações. Desconfiados, os indianos não acreditaram muito na atitude chinesa e ainda disputaram duas escaramuças por fronteiras — em 1967 e 1986 -, tiveram de lidar com o apoio chinês às forças do Paquistão em guerras contra aquele país e também tiveram de enfrentar as críticas chinesas por terem anexado o estado de Sikkim em 1975. Recentemente, a fronteira está novamente movimentada, com os chineses construindo rodovias que vão até os limites e ocasionalmente ultrapassando as áreas permitidas, o que levou a um confronto em setembro de 2014 entre os milhares de soldados posicionados dos dois lados. Em 2013, uma pesquisa indicou que 73% dos indianos viam uma guerra contra a China como uma grande ameaça a seu país, só perdendo para a violência jihadista.
No entanto, às vezes é útil para a Índia ter os tibetanos à sua disposição. Em 1974, talvez capitalizando o excesso de guerrilheiros do Chushi Gangdruk, desempregados e insatisfeitos, as autoridades indianas formaram a Unidade Especial da Fronteira, um grupo de combatentes das montanhas tibetanas dedicado a patrulhar a fronteira com a China — só para irritar o governo chinês, na verdade.
Porém, sempre que as relações com a China estão melhorando, como no período de 2000 a 2011, quando os negócios entre as duas nações aumentaram de US$2,92 bilhões para US$74 bilhões, os indianos acham necessário controlar a situação no Tibete, lembrando visceralmente a seus hóspedes que eles, tecnicamente, não são imigrantes nem refugiados e sim residentes estrangeiros. Todas as vezes que os tibetanos em Majnu ka Tilla tentavam colocar cartazes contra a China ou realizar protestos contra dignitários, a polícia indiana cercava o enclave, proibindo entradas e saídas. O primeiro caso registrado de autoimolação, em 1998, não foi motivado por alguma atrocidade chinesa, e sim pelo fim forçado de uma greve de fome de manifestantes tibetanos.
Mas Narendra Modi, o novo primeiro ministro da Índia, autorizou a colocação de cartazes e a realização de protestos em Majnu ka Tilla. É difícil analisar seus motivos. Ele chegou ao poder como um nacionalista radical, defendendo as fronteiras indianas, o que poderia ser útil para os tibetanos, mas ele também tinha um plano para recuperar os vínculos comerciais com a China. Durante a visita de Xi Jinping, ele também assinou vários acordos comerciais, de desenvolvimento e amizade.
“A Índia lida bem com a diáspora tibetana porque está honrando o Dalai Lama como um líder religioso”, diz Shakya. “Na ausência do Dalai Lama, a Índia não terá como justificar um tratamento tão especial às vítimas da diáspora tibetana”. E será pior ainda para os tibetanos se eles acabarem seguindo o Karmapa Lama, acreditando que ele seja uma emanação ou por mérito de seu próprio carisma, porque o governo indiano não vê com bons olhos esse monge promissor.
Desde o momento em que chegou à Índia, agentes da inteligência do país sempre suspeitaram que o Karmapa havia fugido da China muito facilmente e que ele não tinha recebido a reprimenda necessária por parte das autoridades chinesas. Acreditando que ele poderia ser um espião, a Índia impediu viagens internacionais do Karmapa de 2008 a 2014. Em 2011, foi anunciado que ele estava sendo investigado após uma operação policial em sua casa ter descoberto que ele guardava US$ 1 milhão em moeda estrangeira, sendo que um décimo deste valor estava em yuan chinês. O Karmapa acabou sendo inocentado das acusações porque provou que o dinheiro vinha de doações de seus vários seguidores internacionais. No entanto, a campanha negativa contra ele “foi altamente destrutiva para sua posição”, diz Barnett. A imagem do líder religioso ficou manchada perante o povo indiano e, provavelmente, sua liberdade só aumenta as preocupações dos agentes da inteligência. E já foi deixado claro que, caso o Karmapa Lama suba na hierarquia budista — em vez de ocorrer uma reencarnação do Dalai Lama — o governo indiano terá mais motivos para cutucar os tibetanos, o que limita muito as opções do Dalai Lama quanto à sucessão espiritual.
“Acho que isso deve ser entendido como uma mensagem aos exilados”, diz Barnett. “Vocês não terão garantia de nada após a morte do Dalai Lama. Vocês estão aqui porque é bom para o prestígio internacional da Índia. Ele é muito bom para as relações domésticas da Índia. Ele confere uma admiração ao país por dar abrigo a uma figura religiosa que tem a reputação de estar acima das cruéis políticas referentes à religião na Índia, sobre as quais sempre ouvimos falar.”

Nem Tão Santos.
Numa situação na qual o Karmapa Lama seja posto de lado, sem nenhuma outra emanação provável, o líder da ACT sofra com a falta de carisma e de atitude e o jovem Dalai Lama deva permanecer à margem por pelo menos vinte anos, haverá pouca coisa sobrando para acalmar e unir a comunidade tibetana quando o Dalai Lama morrer. Qualquer provocação por parte dos chineses, especialmente a inevitável proclamação da reencarnação autorizada por eles, provavelmente irá despertar a ira daqueles que já estão preocupados com o discurso atual do Dalai Lama sobre o assunto.
“Existem jovens que são contra a não violência, que são contra a filosofia do Caminho do Meio”, diz Chhinjor. “Se o Dalai Lama não estiver mais aqui, os jovens tibetanos podem se tornar violentos”.


Vendedora de souvenirs em Dharamsala. Imagem: Zishaan Latif.

Mas a morte do Dalai Lama não irá apenas abrir os portões para jovens tibetanos ávidos por definir uma nova geração com uma retórica mais ardente. Existem divergências mais profundas dentro da comunidade, que vêm confrontando o Dalai Lama há anos. Após sua morte, o período de transição irá permitir que essas brechas aumentem e se aprofundem, complicando o caminho e os cálculos astrológicos para qualquer reencarnação, emanação ou regente político que venha a seguir — um conjunto de incertezas que torna muito difícil imaginar qual será a melhor maneira de lidar com a transição. Especialmente preocupante para o 14º Dalai Lama, mesmo se ele conseguir escapar de seu papel intrinsicamente político, é que muitas dessas fissuras acontecem nas linhagens religiosas — não as do tipo esotérico, mas as do tipo que podem causar implicações verdadeiras sobre a unidade da comunidade tibetana.
“Um dos maiores problemas enfrentados pela comunidade tibetana é o fato de haver divisões sectárias dentro da comunidade budista”, diz Grunfeld.
O movimento Dorje Shugden é a manifestação mais visível dessas forças dissonantes. O nome refere-se a uma divindade do budismo tibetano. Dependendo de quem responder sua pergunta, ou ele é um espírito iluminado que aparece em visões aos monges para guiá-los em suas meditações ou um espírito de pouca luz que existe para proteger aqueles que praticam o budismo corretamente, ou ainda, uma força malévola e enganosa. Imagens antigas da entidade sugerem instintivamente esta última opção: ele tem presas e três olhos vermelhos, cabelos desgrenhados e dispõe de várias armas flamejantes, que ele empunha em uma nuvem de fogo. Estátuas mais modernas fizeram uma leve plástica no rosto da divindade, mas ainda há uma aura de ameaça.
A representação é adequada. De acordo com seus seguidores, o Shugden existe para punir o mal. O espírito é específico da escola Gelugpa do budismo tibetano — ou seja, a escola do Dalai Lama — e é promovido pelas pessoas que acreditam em pureza sectária e na supremacia de suas próprias práticas. Eles afirmaram na década de 1930 e reafirmaram em 1976 no Livro Amarelo (uma referência aos chapéus amarelos usados pelos monges Gelugpa) que qualquer pessoa que pratique o Rime será brutalmente punido por este espírito cruel. Rime é a teologia não sectária e ecumênica defendida pelo Dalai Lama atual e pelo anterior, e que prega que todos as linhagens são iguais, incentivando a mistura dos cultos e das práticas.
Na juventude, o Dalai Lama estudou e adorou o Dorje Shugden, mas rapidamente distanciou-se de seus ensinamentos e criticou discretamente o Livro Amarelo em círculos religiosos em 1978. Quando os seguidores do Shugden se recusaram a desistir, o Dalai Lama começou a publicamente fazer condenações mais pesadas à prática, mas sempre dentro de seu papel de líder espiritual — se você seguir o Shugden, você não pode me seguir, argumenta ele. Infelizmente, em um claro exemplo da dificuldade que muitos têm em dissociar o papel político do Dalai Lama de seu papel religioso, existem muitas evidências de que os tibetanos comuns interpretaram isso como um apelo implícito para banir o movimento Shugden da vida pública.
“Existem casos evidentes de discriminação e assédio contra pessoas porque elas pertencem a essa denominação”, diz Barnett. Tibetanos “relacionaram publicamente todos os nomes de devotos de Shugden que eles conheciam, independentemente de estarem envolvidos em protestos contra ou Dalai Lama ou não” e colocaram cartazes em lojas e restaurantes proibindo a entrada deles. “O Dalai Lama e seu governo assumiram quase nenhuma responsabilidade por esses atos”, lamenta ele.
A ACT afirma que, oficialmente, acolhe e assegura os direitos à liberdade de religião dos seguidores de Dorje Shugden. Mas, quase ao mesmo tempo em que diz isso, Chhinjor, Ministro de Religião e Cultura, faz pouco caso daqueles que acreditam na divindade, completando: “O problema é que Dorje Shugden não é budismo… É supostamente um espírito, não uma religião”.
Para os que veneram o Shugden, foi um convite para o rompimento e a oposição ao atual Dalai Lama. Hoje em dia, eles são famosos por publicar longos manifestos na internet, tentativas frustradas de fazer com que a Anistia Internacional declare o Dalai Lama como um violador dos direitos humanos e protestos em massa (especialmente em 2008 e 2014) do lado de fora de suas palestras no Ocidente, quando o chamam de hipócrita e preconceituoso. Eles conseguiram até aliciar, em 2014, a cantora brasileira Deborah Blando. Longe dos holofotes no Brasil, ela soltou a voz em uma mensagem muito direta chamada “Canção de Protesto contra o Dalai Lama”, com uma letra, em inglês, que diz: “você prega a harmonia, o diálogo e a paz / mas impõe proibições e decretos cheios de ódio”. Além desta agressão musical, o culto ao Dorje Shugden já esteve envolvido em ataques muito mais cruéis, como o assassinato de três monges próximos ao Dalai Lama, em 1997, em Dharamsala.
Robert Thurman afirma, como muitos tibetanos, que os seguidores dessa entidade ganharam tamanha força porque “a agência de propaganda chinesa descobriu o assunto e decidiu torná-lo mais visível e público, com a esperança de que finalmente os tibetanos não gostariam tanto assim do Dalai Lama e que os estrangeiros iriam acreditar, finalmente, que o Dalai Lama é um lobo em pele de cordeiro, como eles dizem há muito tempo”.
Infelizmente, as divergências vão além da seita Gelugpa, da qual faz parte o Dalai Lama. A escola Kagyu, do Karmapa Lama, tem sua própria disputa contenciosa e, assim como no caso do Dalai Lama, o Karmapa é o centro da briga. Em 1992, durante a busca pelo 17º Karmapa Lama, um dos monges envolvidos, o Shamar Rinpoche, anunciou que discordava da escolha de seus colegas, os lamas superiores. Dito isso, ele apoiou seu próprio candidato independente para a posição, Trinley Thaye Dorje.
As pessoas com algum senso de história podem achar isso tudo irônico, e aqueles que não acreditam muito no conceito de espíritos e de almas, podem achar tudo muito esquisito, já que o Shamar Rinpoche, em vidas passadas, já foi associado a uma oposição violenta aos lamas da linhagem Kagyu, da qual também faz parte. Em 1972, ele incentivou a invasão do Tibete pelos soldados gurkhas nepaleses, que saquearam e destruíram monastérios dos quais ele não gostava. Por causa dessa intriga, o Shamar Rinpoche ficou proibido de reencarnar até meados do século XX. O fato de que sua primeira reencarnação desde então iria passar vinte anos — até sua morte em 2014 — apoiando uma minoria e um candidato oposicionista espanta até mesmo os mais céticos.
Segundo o próprio Thaye Dorje, apesar de toda a disputa sobre sua posição, o Karmapa é um monge como os outros, mais preocupado com as banalidades agradáveis sobre a busca pela paz interior do que com o os detalhes práticos dos jogos políticos do monastério. Portanto, a existência de dois Karmapas no mundo não afeta muito a ele nem a seus seguidores.
“Posso viajar livremente, encontrar estudantes, líderes e jovens em todo o mundo”, diz ele.
Mas ele admite que uma reencarnação questionada pode ter suas desvantagens.
“Há um risco”, diz ele, “de que onde exista confusão e até mesmo raiva, possam surgir ideias, palavras e ações em desarmonia com o darma do Buda”, o que quer dizer a não violência.
Contudo, não são apenas os budistas apolíticos que podem se afastar do movimento pelo Tibete unificado. Minorias como a religião Bön, que tem cerca de 300 monastérios, são oficialmente acolhidas e incorporadas à Administração Central Tibetana e à comunidade.
“Nós os tratamos da mesma forma que nossos próprios monastérios”, afirma Chhinjor. Eles também têm uma cota de representação no parlamento.
Até 1977 havia um certo grau de estigma contra a fé Bön e foi especialmente graças à iniciativa do Dalai Lama naquela época e a uma confirmação em 1987 que ela foi incorporada ao movimento e à cultura principal tibetana. Não é raro que os tibetanos se refiram aos seguidores do Bön como chipa, que quer dizer “forasteiros”, um tipo de exclusão que talvez eles não apreciem muito. E é impossível saber agora, já que Dalai Lama conseguiu a aceitação deles na comunidade, se essa condição de intrusos irá aumentar quando ele morrer. E nem vamos começar a discutir a questão dos tibetanos católicos e muçulmanos, que existem em números muito menores e estão muito mais isolados geograficamente.
Ainda mais desafiadora para a unidade do povo tibetano é a mudança rumo ao secularismo, de forma implícita mas podendo chegar à agressividade, com uma retórica que esse grupo ainda não está pronto para lidar. É fácil perceber por que alguns tibetanos estão desiludidos com sua fé budista:
Em outras tradições budistas, como a Takashi Tsuji, monges já colocaram em dúvida a ideia de reencarnação baseada em textos essenciais budistas, sugerindo que a prática é mais uma invenção e construção cultural dos tibetanos do que qualquer outra coisa.


Jovens tibetanos refugiados em casa noturna de Dharamsala. Imagem: Zishaan Latif.

E, apesar deste ponto de vista ser contencioso, esotérico e discutível, não ajuda em nada uma outra história de reencarnação: que o ator americano Steven Seagal, lutador de artes marciais e famoso pelos papeis de durão, foi reconhecido por Penor Rinpoche, um importante mestre espiritual budista, como a reencarnação de Chungdrag Dorje, um alto lama tibetano. Também fica difícil defender a causa quando outras reencarnações bem importantes, como o 23º Gomo Tulku se envolvem em vídeos de hip-hop, totalmente tolos, como ele fez em 2011 em “Photograph”, sua obra de estreia. Nas imagens, o jovem monge aparece usando óculos escuros à noite, indo a boates onde são servidas muitas bebidas alcoólicas e cantando uma música banal sobre amores perdidos, finalizada pelo som de cliques de câmeras fotográficas.
Fora da realidade dos monastérios, outros monges abandonaram seus votos e questionaram a autoridade religiosa dos lamas e até mesmo o princípio da transferência de consciência. É famoso o caso do lama superior Kagyur Rinpoche que, em meados da década de 1980, abandonou seus votos e teve um caso com atriz indiana Mandakini.
Os monges também estiveram envolvidos em vários escândalos sexuais durante as últimas duas décadas — como mostrado no documentário canadense In the Name of Enlightenment, considerado tendencioso, porém informativo e que foi lançado em 2011. De acordo com o documentário, tais casos normalmente envolvem lamas ocidentais que coagiram ou simplesmente estupraram seguidores. Os escândalos, aliados a atividades financeiras ilícitas, reencarnações esdrúxulas e o fascínio da modernidade têm afastado muitos da devoção ao budismo.
Depois de estudar em escolas modernas, diz Chhinjor, os jovens tibetanos no exílio “estão um pouco relutantes em entrar no monastério para tornarem-se monges”. A maioria dos monges tibetanos na Índia hoje veio do Tibete propriamente dito e o número de noviços está diminuindo enquanto as fronteiras se fecham. “Se você for hoje aos monastérios, quase a maioria dos estudantes é de outras regiões do Himalaia: do Butão ou de Sikkim”, explica Chhinjor. “Basicamente, a cultura é a mesma, o idioma é o mesmo, a religião é a mesma”. Mas não é somente a juventude tibetana que vem agora. “De certa forma, a situação é preocupante”, conclui Chhinjor.
É preocupante não apenas do ponto de vista religioso, mas também pelos aspectos sociais e políticos. O Dalai Lama e a ACT já disseram repetidas vezes que, para sentir e pensar como um tibetano, ser parte da cultura, é preciso internalizar e praticar o budismo tibetano.
Esse sentimento não deixa muito espaço para os tibetanos seculares no movimento, na comunidade ou na concepção popular do budismo.
“No que diz respeito à unidade política não religiosa”, admite Phuntsok, “Acho que ainda temos um longo caminho a ser percorrido”.

A Luta.
Dentro do Tibete, o sectarismo e outras divisões também causarão danos. Muitos já se renderam ao Shugden e podem ter se voltado para o secularismo, apesar de ser absolutamente impossível saber os números ou a proporção que essas pessoas representam. Quando o Dalai Lama morrer e na subsequente busca por sua reencarnação, diante da confusão, muitos se verão forçados a procurar outra fonte de esperança, orientação ou de afiliação religiosa. Onde os tibetanos encontrarão esse tipo de consolo é menos evidente.
Alguns podem se voltar para o regime comunista. “Um grande número de pessoas não irá correr para a mão de ferro do sistema “, diz Barnett, porque a repressão das forças de segurança se tornou mais flagrante e também mais direcionada e precisa em relação a pessoas e comportamentos bem específicos e identificados, em vez de aspectos abrangentes. Talvez nem todos aprovem, mas será mais fácil consentir com os acontecimentos, ficar fora do radar e viver a vida com um mínimo de segurança. E a obediência ao Estado e ao trabalho podem trazer seus benefícios — monetários e sociais. De acordo com estatísticas oficiais, a filiação ao partido comunista no Tibete está aumentando mais do que a outros partidos do país, com um crescimento de 46,5% entre 2006 e 2012, sendo que 80% dos novos membros são tibetanos. Isso significa que 7,7% dos moradores da Região Autônoma do Tibete são membros do partido, em comparação a 6,2% na média nacional. Esses números são duvidosos, mas, mesmo se forem exagerados, é possível que eles apontem para uma tendência real.
Outros podem se unir a lamas obedientes ao Estado por nenhuma outra razão a não ser o fato que esses lamas — não indicados pela China e por isso mais agradáveis do que o Panchen Lama — têm mais recursos para serem distribuídos e uma maior visibilidade do que seus pares. Monastérios obedientes ao regime recebem fundos para reformas e são incluídos em rotas turísticas, o que pode ser incômodo e restritivo, mas recompensador para aqueles que ganham dinheiro com isso. Lamas populares e convencionais também se beneficiam tacitamente da obsessão dos chineses da etnia Han pela espiritualidade, uma obsessão alimentada por peregrinações e a devoção de atores chineses como Chen Kun e de cantores de Hong Kong, como Faye Wong. O dinheiro e a fé desses artistas famosos trazem mais devotos e riqueza, que podem atrair mais seguidores por si só, apesar de os lamas poderem escolher alocar esse dinheiro para outras partes que não o Tibete.
E, apesar das falhas anteriores, nos últimos dois anos o governo chinês realizou todos os esforços possíveis para que o Panchen Lama escolhido por ele caísse nas graças dos tibetanos. Em 2012, ele recebeu um lugar de destaque no Fórum Budista Mundial em Hong Kong; em 2014, foi levado em um giro de três meses pelo Tibete, visitando monastérios, casas de repouso, hospitais e escolas, distribuindo benefícios e exaltando as virtudes da tranquilidade e da estabilidade social. O Panchen Lama apontado pela China ganhou também uma ajuda inesperada por parte de Yabshi Pan Rinzinwangmo, também conhecida como Renji ou Princesa, que é filha do Panchen Lama anterior com sua mulher da etnia Han (e da ala de Steven Seagal). A Princesa não tem oficialmente nenhum poder espiritual, mas conseguiu reunir multidões durante uma visita ao Tibete em 2002 quando apoiou, de forma leve, a instituição do Panchen Lama e o governo chinês. Não é possível saber se esses acontecimentos provocarão algum resultado, mas a mais recente visita de Gyaincain Norbu (o 11º Panchen Lama, segundo o governo chinês) ao Tibete aconteceu sem maiores incidentes. Se ele se tornar um pouco mais esperto, poderá conseguir ganhar um pouco mais de força — mas ninguém gosta de falar sobre isso agora.
Mas para os que acreditam na conversa dos órgãos governamentais, é igualmente provável que alguém mais irá brigar. Funcionários do governo disseram ter encontrado arsenais de armas durante os protestos de 2008 quando lojas de proprietários das etnias Han e Hui foram queimadas. Possivelmente, a afirmação era apenas propaganda do governo, mas não totalmente fora da realidade.
“A China é um lugar onde todo mundo carrega facas e você provavelmente pode conseguir uma arma sem que ninguém dê importância ao assunto”, diz Barnett. E os tibetanos nos bares de Chengdu têm a reputação de saber brigar com facas.
Chhinjor acha que o ódio que alimenta as autoimolações irá ser direcionado para os chineses assim que o Dalai Lama morrer.
“Se você detém tanta força de vontade, quem está causando seu sofrimento?”, pergunta ele. “Eles podem incendiar lojas e escritórios chineses, se quiserem. Mas eles não agem assim porque acreditam no que o Dalai Lama disse: não, não devemos fazer isso… [Mas quando] Sua Santidade morrer, a mensagem não estará mais lá. Os chineses continuam a fazer isso, então tudo pode ficar violento. Estamos muitos preocupados com essa situação futura”.
Até mesmo o assessor de imprensa da ACT, Tsering Wangchuck, um homem circunspecto e escorregadio, que normalmente fala no ritmo ponderado e monótono típico de um porta voz governamental extremamente cuidadoso, apoia Chhinjor francamente nessa avaliação. “Tememos que o povo tibetano, que por tanto tempo tem mostrado resiliência, evitando incidentes de violência, possa algum dia ser incitado devido a manobras políticas e à falta de respeito aos valores humanos mais fundamentais”.


Idosa descansa em banco próximo ao templo Tsuglugkhang. Imagem: Zishaan Latif.

Sentado em um banco perto do templo Tsuglugkhang, observando tibetanos jovens e velhos fazendo suas circumambulações ao redor das gigantescas e douradas rodas de oração e parando em diversos altares, é fácil de esquecer todas estas forças borbulhantes e contenciosas. Ouvindo o Sikyong discorrer sobre o brilhante futuro da democracia tibetana e a inevitável marcha da justiça de sua causa, é fácil esquecer a desunião. Olhando para um cartaz do Dalai Lama, sorridente e aparentemente inabalável, é fácil esquecer que ele não é um símbolo intangível e eterno do movimento tibetano, mas sim um homem mortal.
Dharamsala irradia esperança e fé. Mas Dharamsala não é Lhasa, nem Lhagang, tampouco Majnu ka Tilla. Este oásis de internacionalismo, pacifismo e diálogo é apenas um ponto em um mundo muito maior, e a linha de pensamento e o tipo de unitarismo que ele representa é apenas um ponto fixo no tempo em uma história tibetana muito mais longa. Não é o futuro. É um belo presente, mas não é uma garantia. É um propósito das forças que criaram este lugar — ou seja, Sua Santidade.
À medida que o tempo avança e a janelas e os momentos criados por ele chegam ao final, o Dalai Lama enfrenta escolhas impossíveis sobre sua função na comunidade após sua morte. As ideias dele, desafiadas pela ruptura do diálogo com a China, já são criticadas por uma nova geração rebelde. Seu mundo ideal, no qual o Dalai Lama renuncia a todas as forças políticas e a ACT se torna uma força inerentemente unificadora, é utópico. Isso porque ele deixa de reconhecer como sua própria existência atrapalha e limita a capacidade de qualquer outra força de assumir seu lugar e como nem mesmo os políticos podem desvencilhar sua imagem da ideia de unidade e não violência.
Sua reencarnação será questionada, provocando reações, ao mesmo tempo em que sua consciência surgir em uma criança desconhecida. E sua melhor perspectiva para emanação — o Karmapa Lama — está reticente quanto a assumir um papel mais importante do que o que já tem e sujeito a causar fricção com o último grande aliado do Tibete se assumir uma posição de liderança. A unidade de seu povo está sob o ataque, tanto por parte dos sectários quanto dos secularistas. E nenhuma reencarnação, emanação ou substituição governamental do Dalai Lama será plenamente capaz de lidar com estes dois lados, que podem explorar o vácuo criado pela morte do líder. Todas as opções são preocupantes e levam a um caminho rumo a uma nova era da história tibetana, única e nebulosa, que provavelmente será estranha e chocante para aqueles acostumados ao paraíso espiritual de Shangri-lá.
O Tibete não desaparecerá da consciência internacional. A região é muito importante do ponto de vista ambiental, geopolítico e econômico para a China e para a Índia — e, consequentemente, para o mundo. Mas relevância internacional não se traduz em apoio generalizado para a causa. Em 2014, a entrada do Dalai Lama foi negada na Mongólia, Rússia e África do Sul e o Primeiro Ministro da Noruega negou-se a encontrar com ele durante uma visita ao país. Eles estão evitando o “Bambi” simplesmente porque ele não é mais tão útil ou relevante em comparação à China. E se a desunião e a violência tomarem conta do Tibete, “eles perderão 50 por cento do apoio ocidental”, diz Barnett.
É por isso que o Dalai Lama enfatiza sua longevidade e sempre declara que espera viver até os 113 anos, procrastinando uma decisão final sobre seu futuro espiritual até que tenha 90 anos. Ele está determinado a estender sua janela de tempo o máximo possível, contando com sua habilidade de aproveitar o que resta de sua influência e negociar um acordo com Pequim antes de morrer. Em outubro de 2014, ele disse à National Public Radio, nos Estados Unidos, que acredita que ainda poderá retornar ao Tibete no futuro e boatos continuam a circular sobre uma possível visita.
“A presidência de Xi Jinping iniciou uma nova era”, disse. “Ele quer criar uma sociedade mais harmoniosa do a que havia com seu antecessor”. O Dalai Lama, seus simpatizantes e seguidores apontam para a referência feita em março de 2014 por Xi Jinping. O presidente disse que o budismo era uma parte importante da cultura chinesa, o que levantou esperanças de que tenha sido um sinal de que ele está aberto a restaurar a liberdade religiosa no país. Alguns enfatizam que Xi Zhongxun, pai do atual presidente, encontrou-se com o Dalai Lama e escreveu a biografia do 10º Panchen Lama. Ansiosamente, os seguidores do líder espiritual esperam que esses fatos tenham influenciado o presidente de alguma forma.


Monge executa ritual no templo Tsuglugkhang, residência oficial do Dalai Lama. Imagem: Zishaan Latif.
Mas isso pode ser apenas uma esperança desesperada. Em 2011, Xi prometeu deter quaisquer tentativas de separatismo e durante os primeiros anos de seu governo não houve sinais de abrandamento das políticas chinesas na Região Autônoma do Tibete. Qualquer negociação irá requerer exigências ainda maiores do que o Caminho do Meio oficialmente espera conceder.
Mas nada disso significa que os tibetanos estão condenados ou que as conquistas do Dalai Lama foram perda de tempo ou mentiras. Nada disso significa que um líder irá surgir nos próximos dez ou vinte anos, ou que a Administração Central Tibetana ou o Karmapa irão encontrar algum tipo de antídoto para suas deficiências atuais. Só significa que uma era está morrendo e nem mesmo um ser iluminado como o Dalai Lama é capaz de negociar o Bardo que vai além de uma época. Só resta esperar que não se realize a profecia sinistra do antecessor deste Dalai Lama, escrita em 1932, em um texto conhecido como seu testamento:
“Nossas tradições espirituais e culturais serão totalmente erradicadas. Até os nomes dos Dalai Lamas e dos Panchen Lamas serão esquecidos… Os monastérios serão saqueados e destruídos e os monges e monjas serão mortos ou perseguidos… Nós nos tornaremos escravos de nossos conquistadores”.




Mark Hay é editor internacional do BRIO. Originalmente de Spokane, no Estado americano de Washington, graduou-se pela Columbia University e tem mestrado pela Universidade de Oxford. Escritor, editor e repórter freelancer, Hay contribui para revistas como a VICE, GOOD e Modern Notion. Conduziu pesquisas e produziu reportagens em diversos países, do Quênia até a Mongólia.

Originalmente publicado em 27 de maio de 2015, em http://brio.media
Fonte:https://medium.com/brio-stories/dalai-lama-sem-sorrisos-50699d8c0b05

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